quarta-feira, 1 de junho de 2011

TerraCycle quer transformar lixo em commodity

Os americanos Tom Szaky e Albe Zakes, da TerraCycle, contam sobre como decidiram ganhar dinheiro com lixo – basicamente embalagens de produtos – e o pretensioso sonho de transformá-lo na nova commodity do século XXI

Débora Spitzcovsky – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável – 09/01/2010

Tom Szaky, 28 anos, e Albe Zakes, 25, estão se transformando em personalidades do meio empresarial graças a um negócio nada convencional que fundaram, juntos, em 2001, nos EUA e que está se expandindo pelo mundo, inclusive no Brasil, onde atuam desde o ano passado. Trata-se da TerraCycle, uma empresa que transforma diversos tipos de lixo em artigos de consumo, como bolsas, mochilas, guarda-chuvas e capas para caixas de som.

Segundo os sócios, os produtos são bem diferentes de tudo o que existe no mercado – meio exóticos, poderíamos dizer – e estão agradando aos consumidores, o que prova que há cada vez menos preconceito da sociedade com artigos feitos de materiais reutilizados.

Em entrevista ao Planeta Sustentável, no escritório brasileiro da TerraCycle, em São Paulo, Tom e Albe contaram, com detalhes, sobre a dinâmica do negócio que administram e confessaram seu pretensioso sonho de transformar o lixo na nova commodity do século XXI. (Assista ao depoimento de Albe, em vídeo, nesta reportagem)

Onde as pessoas viam lixo, vocês enxergaram uma oportunidade de ganhar dinheiro. Como surgiu essa ideia?
Albe Zaches -
Tudo começou em 2001, quando Tom estava na faculdade e se deu conta da quantidade de comida que as lanchonetes do campus jogavam fora. Ficamos chocados com o desperdício e resolvemos usar o lixo para produzir e vender fertilizantes orgânicos, feitos a partir do processo de compostagem.

O sucesso do negócio nos fez pensar em outras maneiras de utilizar o lixo e foi assim que surgiu a TerraCycle, que, na minha opinião, é um ótimo negócio. Lixo é uma coisa que ninguém quer, que todos jogam fora. Tem lixo em todo o canto e por um custo muito pequeno. Assim, ao usarmos o lixo como matéria-prima para fazer novos produtos, ajudamos o planeta e, também, lucramos, porque o custo de produção é muito baixo.

Por que vocês escolheram o nome TerraCycle?
Albe -
Na natureza, não há nenhum tipo de desperdício. Nada é lixo, tudo pode ser reaproveitado. O que o nosso negócio propõe é imitar essa dinâmica do planeta, buscando uma solução positiva para um grande problema criado pelo homem, o lixo. Por isso, TerraCycle.

Nós temos parcerias com diversas empresas, que nos mandam embalagens excedentes do processo de produção. Além disso, possuímos vários programas de coleta que nos garantem a matéria-prima necessária para fazer os produtos. Qualquer tipo de instituição – como igrejas, escolas ou associações de bairro – pode se cadastrar no nosso site para ser um ponto de coleta e, assim, nos enviar, inteiramente grátis, embalagens das empresas com as quais trabalhamos. No Brasil, por enquanto, o único tipo de lixo que reaproveitamos são as embalagens de salgadinhos, mas temos planos de fazer parcerias com empresas de outros segmentos. Nos EUA, já trabalhamos com embalagens de doce, café e produtos orgânicos.


E os consumidores brasileiros também podem participar de alguma maneira?
Tom -
Sim, qualquer um com mais de 18 anos pode se cadastrar no site para nos enviar embalagens. Basta juntar 100 unidades, imprimir as etiquetas pré-pagas de correio que estão disponíveis no nosso site, colocar tudo em uma caixa e nos mandar, inteiramente grátis. Para cada embalagem que recebemos, ainda doamos R$ 0,02 para entidades escolhidas pelo próprio remetente.

Os consumidores têm mostrado interesse em participar do projeto e enviar doações?
Albe -
Sim, mas temos consciência de que quanto mais acessível todo esse processo for para o consumidor, melhores serão os resultados. Tem gente que não tem internet ou, então, que acha a iniciativa bacana, envia embalagens uma ou duas vezes, mas depois desistem de participar, talvez porque o projeto deixe de ser novidade. Por isso, temos planos de implantar no Brasil uma ação que já realizamos nos EUA: postos de coleta nos supermercados onde vendemos nossos artigos. Assim, as pessoas podem ir ao local para comprar novos produtos e aproveitar para descartar os velhos ali mesmo.

Assista, no vídeo abaixo, a um trecho da entrevista com Albe Zaches, realizada na sede do escritório da TerraCycle, em SP, em companhia de Patrícia Augustin, responsável pelos negócios da empresa no Brasil.



No Brasil, onde as pessoas podem encontrar os produtos que vocês criam?
Tom -
Por enquanto, vendemos nossos artigos no Walmart, mas estamos buscando novas parcerias na rede varejista, como o Pão de Açúcar e o Carrefour. Além disso, nossa outra meta para este ano, no Brasil, é fazer parcerias com novos fornecedores de embalagens. Hoje, trabalhamos com a Pepsico e, mais recentemente, fechamos um acordo com a Tang, mas nosso objetivo é estabelecer parcerias com outras grandes empresas, que trabalhem com produtos variados como escovas de dente, canetas e embalagens de doces.

Por que escolheram o Brasil para expandir a atuação da TerraCycle, logo depois da experiência nos Estados Unidos?
Tom -
O Brasil representa um novo e grande mercado para nós, por estar localizado na América do Sul. Logo depois, nos lançamos em outros países – como Canadá, Inglaterra, França e Alemanha –, mas o Brasil continua sendo uma das nossas prioridades porque é como se fosse um caso de estudo para a gente. A dinâmica de mercado de vocês é completamente diferente da norte-americana, onde começamos. Um dia, queremos implantar a TerraCycle em todo o mundo, em diferentes mercados, mas queríamos começar esse desafio pelo Brasil.


Na verdade, surpreendentemente, encontramos mais semelhanças do que diferenças. Nos dois países, os varejistas, fornecedores e, principalmente, os consumidores agem da mesma maneira. Talvez exista uma pequena diferença em termos de preferência porque alguns produtos vendem mais nos EUA e outros, no Brasil. Mas a ideia de comprar produtos feitos de lixo está sendo bem aceita nos dois lugares, felizmente.

Acredito que a única diferença marcante é com relação ao movimento cooperativista, que, no Brasil, é muito maior do que nos EUA. Aqui, há milhares de cooperativas que separam o lixo para reciclagem, o que nos incentivou a criar programas específicos para esse segmento. As cooperativas podem entrar em contato conosco para saber que tipo de produtos estamos dispostos a comprar e por qual preço. Até agora, já coletamos meio milhão de embalagens de salgadinhos desta maneira. Consideramos um bom número e temos consciência de que esse tipo de ação só funciona aqui no Brasil mesmo. Nos EUA isso não existe, infelizmente, porque a cultura é muito diferente.

Muita gente não compra produtos ecológicos porque são mais caros. Como vocês lidam com a questão do preço?
Tom -
O custo é realmente um grande problema no mercado sustentável. Normalmente, os produtos são mais caros porque o custo para produzi-los é muito maior. Mas isso não acontece com a TerraCycle porque temos uma vantagem: nossa matéria-prima não é especial. Os produtos são feitos de lixo e lixo quase não tem custo. Assim, uma mochila nossa, por exemplo, é feita e vendida no varejo pelo mesmo preço que uma mochila comum. Ou seja, além de sustentáveis, nosso diferencial é que somos economicamente competitivos.

Como as pessoas reagem ao fato de vocês venderem produtos feitos de lixo?
Albe -
Muitos tem preconceito em um primeiro momento, mas, para lidar com essa questão, apostamos em designs legais. Se temos um artigo feito de lixo, mas que é único, descolado e de boa qualidade, não tem porque não comprá-lo. Essa é a nossa tática e os consumidores estão respondendo bem a ela. Nos EUA, as vendas estão dando um retorno bem positivo e, aqui no Brasil, levando em conta o pouco tempo de atuação da TerraCycle, também.

É graças ao lixo que podemos manter os preços de nossos produtos acessíveis ao consumidor e, por isso, nos orgulhamos de trabalhar com esse material. Queremos mostrar para as pessoas que não é porque era lixo que não pode ser reaproveitado. Pode, sim, e para fazer produtos de qualidade.


Sim. Às vezes, o consumidor não sabe a diferença entre um produto convencional e um reciclado e, se não está antenado com isso, compra um produto reciclado sem nem saber. Não queremos isso. Ao olhar nossos produtos, você sabe que eles são feitos de lixo e, na minha opinião, isso é uma ótima lição de educação ambiental, especialmente para as crianças.

A reciclagem é um processo educacional e eu acredito que estimulamos isso com a TerraCycle. Quando vão ao supermercado e olham nossos produtos, as crianças imediatamente percebem como as embalagens que jogam no lixo convencional foram reutilizadas e, assim, acredito que repensem suas atitudes. É uma forma bem fácil de se educar.

Vocês acreditam que estão abrindo uma nova porta no mercado internacional?
Albe -
Acredito que sim e espero estar certo. Sempre nos perguntam se temos medo de concorrência e nossa resposta é sempre a mesma: nós queremos competidores. Há mais lixo no mundo do que qualquer empresa poderia utilizar sozinha. O fato de estarmos mostrando ao planeta que isso pode ser usado como matéria-prima nos orgulha. Estamos empolgados e esperamos substituir o petróleo pelo lixo, transformando-o na nova commodity do século XXI. É apenas um sonho, mas um sonho totalmente possível. Há muito lixo no mundo e dezenas de maneiras de aproveitá-lo. Nós, da TerraCycle, apenas descobrimos a nossa.

Leia também: Ele deixou Princeton para catar lixo

*TerraCycle

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Alto-falante de Pirâmide, confeccionado com embalagens de Fandangos
Os artigos da TerraCycle mantêm a identidade visual das embalagens que iriam para o lixo bem visível. Isso é de propósito?
Albe -

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Bolsa Duffel, feita a partir de embalagens usadas da batata Ruffles
Quais são as principais diferenças e semelhanças que vocês percebem entre a cultura brasileira e a norte-americana?
Tom -

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Bolsa Entrelaçada, feita com embalagens usadas de Doritos
Como vocês conseguem a matéria-prima para fazer os produtos?
Tom Szaky -

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