quarta-feira, 29 de junho de 2011

Consumo de produtos certificados: ainda falta consciência


Você sabe o que é um produto certificado? Entenda, aqui, porque é importante exigir o selo FSC

Thays Prado - Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável - 04/03/2008

Não se envergonhe: no Brasil, pouca gente sabe o que são produtos certificados e, muito menos, o quanto eles podem ajudar a preservar o meio ambiente. Na verdade, até o termo certificação ainda é algo muito recente por aqui.

COMO TUDO COMEÇOUHá cerca de 14 anos, algumas ONGs européias chamaram a atenção para o enorme consumo de madeira tropical e a conseqüente responsabilidade que os países importadores tinham sobre a destruição das florestas. Na época, alguns países chegaram a boicotar a compra de matéria-prima brasileira para não acabar com a floresta Amazônica.

No entanto, com a necessidade de continuar consumindo madeira - e o pavor de ter uma ONG batendo à porta -, o jeito foi estabelecer critérios sobre a maneira como a floresta era explorada. Poder de compra era o que não faltava para que a decisão fosse levada a sério.

Hoje, todo produto brasileiro de origem florestal que chega à Europa possui o selo FSC, que explicamos a seguir. Só que o mercado interno é responsável por 65% do consumo da madeira da Amazônia. Por isso, está mais do que na hora de a certificação tornar-se não só uma exigência, mas uma questão de cultura nacional.

O QUE É FSCO FSC é o selo do Forest Stewardship Council ou Conselho de Manejo Florestalque garante que a matéria-prima florestal foi manejada corretamente e que a cadeia produtiva - percurso feito até se transformar em produto final - foi acompanhada por uma certificadora. Existem dois tipos de certificação que podem gerar o FSC: a de Manejo Florestal e a de Cadeia de Custódia.

Para adquirir a certificação de Manejo Florestal, a floresta - natural, plantada, privada ou pública - precisa ser gerenciada e se basear no tripé da sustentabilidade (ser ecologicamente correta, socialmente justa e economicamente viável). Ela passa por um inventário e é dividida em talhões: as árvores são classificadas em avós, mães e filhas. Apenas as árvores mais velhas podem ser extraídas e, ainda assim, é preciso deixar 30 cm de altura para que ela possa renascer - o que leva de 5 a 10 anos.

Enquanto isso, as árvores mães e filhas podem continuar crescendo. Cada talhão é mapeado para que o trator cause o menor dano possível à área. Os funcionários também devem ser registrados - mão-de-obra escrava, nem pensar! -, trabalhar com segurança e obter treinamento. É fundamental que as comunidades que vivem na floresta sejam respeitadas e incentivadas a se sustentar por meio dela, sem destruí-la. Esse certificado também vale para produtos não madeireiros como óleos, sementes e castanhas.

"Se todas as florestas fossem exploradas dessa maneira, que é a correta, não seria necessário haver um selo de certificação, mas não é assim que funciona e, na Amazônia, esse processo não é tão óbvio.", comenta Ana Yang, secretária executiva do FSC Brasil.
Maria Regina Nouer, coordenadora do Programa Consumo Responsável, do Imaflora - Instituto de Manejo Florestal e Agrícola, conta que um estudo ainda não divulgado confirma a relação direta entre mudanças na vida do funcionário - em termos de proteção, treinamento, número de horas trabalhadas e benefícios recebidos - e o ganho de qualidade no trabalho.

Mas não basta garantir que a matéria-prima seja extraída corretamente, se não for processada de forma adequada. A certificação de Cadeia de Custódia é dada a quem trabalha com material certificado - como as serrarias, os fabricantes de móveis, os designers, as gráficas e a indústria de cosméticos, por exemplo. Toda a cadeia produtiva é rastreada. Um dos aspectos verificados é se houve mistura entre insumos certificados e não certificados. Para receber o selo, um produto final deve ter, no mínimo, 70% de matéria-prima com selo FSC.

PARA OBTER O SELOA certificação não é um processo obrigatório. Um produto pode cumprir todos os parâmetros legais e, ainda assim, não possuir certificado. No entanto, se um produto tem o selo, certamente ele está legalizado, pois a lista de exigências para sua aquisição é muito maior do que as obrigações da lei. Você pode conferir os cirtérios e padrões requisitados no site do FSC.

A seguir, eis os passosque a empresa deve seguirpara conquistar o FSC:
- A empresa deve pedir a uma certificadora* - organização independente - que faça uma pré-avaliação de como está sua operação em relação às exigências do selo;
- A certificadora faz uma consulta pública à população que vive nas redondezas e ouve o que ela tem a dizer sobre o empreendimento;
- É feita uma avaliação completa da floresta, do manejo da matéria-primae até dos escritórios, que verifica se os padrões e critérios do FSC estão sendo cumpridos;
- Um relatório é entregue ao dono do empreendimento com todos os pontos que devem ser resolvidos ou melhorados;
- Depois do tempo determinado pela certificadora, para que sejam feitas as correções necessárias, os auditores são novamente convidados para fazer uma última checagem, quando elaboram um relatório final;
- Esse relatório é avaliado por especialistas e o selo é, ou não, concedido;
- O documento de certificação fica disponível publicamente;
- Anualmente, é feita nova auditoria pela certificadora. Visitas extras podem acontecer em caso de suspeitas de irregularidades;
- A cada 5 anos, todo o processo é repetido.

*As certificadoras são constantemente monitoradas pelo FSC, mas não há nenhum tipo de repasse de verba delas para o Conselho. Atualmente, existem5no Brasil (veja lista aqui).
Pode ser que um produto certificado seja mais caro do que um não-certificado, mas essa diferença de preço, na maioria das vezes, se deve ao fato de que o produto cumpre todas as exigências legais. "Infelizmente, o consumidor está acostumado a pagar por madeira ilegal, então o preço de um produto que paga todos os impostos ainda pesa no bolso", observa Ana Yang. Segundo ela, o governo tem investido em medidas para aumentar o custo da ilegalidade, tornando-a cada vez mais inviável.

O risco de o selo se tornar apenas mais um mero artifício mercadológico para ganhar novos clientes é pequeno. "Depois que uma empresa se certifica, há muito mais olhos voltados para o que ela está fazendo. A transparência tem que ser muito maior", garante a secretária executiva. Além disso, para que o processo de certificação seja concluído, as empresas levam de um a dois anos. Trata-se de uma decisão de marketing: durante esse tempo, é preciso trabalhar a idéia com o consumidor final para que haja demanda suficiente por produtos certificados.

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