quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Fauna e a flora do fundo dos oceanos estão ameaçadas

Por Celina Nascentes– 8 de agosto de 2011

Publicado em: Notícias, Pegada Ecológica, Pesquisa, Tecnologia



Os impactos negativos da ação humana nos ecossistemas ultrapassaram a parte visível do planeta. Setenta e um por cento da Terra é formada pelos oceanos e, apesar de metade dos mares terem profundidade acima de 3 mil metros, esse mundo distante e pouco conhecido já sofre ameaças à fauna e à flora. Mudanças climáticas antropogênicas, lixo e exploração submarina são as principais causas da degradação oceânica, de acordo com um estudo internacional baseado em dados do Censo da Vida Marinha e publicado neste mês pelo site especializado PloS One.


“As pessoas não veem o fundo do mar, por isso, sua degradação é um problema com o qual não se preocupam. Isso tem incentivado, ao longo dos séculos, o despejo de todo tipo de resíduo no oceano”, observa, em entrevista ao Correio, Eva Ramirez-Llodra, biogeógrafa do Instituto de Ciências do Mar, em Barcelona, principal autora do artigo. “Ações como essa trazem efeitos ainda desconhecidos para os hábitats e suas faunas. E, embora jogar lixo no mar seja uma atividade proibida, o problema persiste por causa do acúmulo histórico em oceanos de todo o mundo”, diz a pesquisadora, que também integrou a equipe do Censo da Vida Marinha.

[FOTO2]De acordo com Ramirez-Llodra, a exploração do fundo do mar começou há 150 anos, incentivada por debates sobre a existência de vida a profundidades a partir de 300m. Em 1818, sir John Ross, almirante escocês, descreveu a estrela-marinha Gorgonocephalus caputmedusae, capturada a 1,6 mil metros na Passagem Noroeste, uma rota marítima entre os oceanos Atlântico e Pacífico, localizada na costa da América do Norte. Só em 1850, contudo, surgiram provas contundentes de flora e da fauna nas partes mais profundas do mar, nos fiordes da Noruega. Pouco tempo depois, a expedição oceanográfica HMS Ghallenger, ocorrida entre 1872 e 1876, encontrou animais em todos os abismos marinhos investigados, mesmo resultado obtido em 1952, quando foi encerrada a expedição dinamarquesa Galathea.

“Ao fim desse período de explorações pioneiras, a compreensão que se tinha do oceano profundo era a de um local com baixa biodiversidade. Um ambiente escuro, tranquilo e invariável”, diz o artigo. Com base nessa informação, em 1972 foi assinada a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, documento que considerava o fundo das águas profundas, incluindo os minerais depositados no solo, como explorável. “Mas essa visão mudou substancialmente nas décadas seguintes”, conta Ramirez-Llodra.

Riqueza provada

Graças a tecnologias mais sofisticadas, pesquisas da macrofauna demonstraram que o oceano profundo era muito mais diverso biologicamente do que se imaginava. Em uma única amostra, uma equipe de cientistas encontrou 365 espécies diferentes. Na década de 1990, foi estimado que 10 milhões de pequenos invertebrados — o dobro do encontrado em florestas tropicais — habitavam o fundo do mar. “Mesmo assim, poucos foram os esforços para pesquisar e analisar esse ambiente”, lamenta a biogeógrafa.

Somente no fim do século 21, o oceano profundo foi reconhecido como o maior ambiente da Terra, contendo numerosos sub-hábitats, com características únicas e uma alta biodiversidade. “Ainda assim, o fundo do mar continua mais do que remoto na consciência pública”, comenta Odd Aksel Bergstad, pesquisador do Instituto de Pesquisas Marinhas da Noruega e coautor do artigo publicado no PloS One. “O oceano profundo foi e continua sendo percebido como um provedor de serviços em dois níveis: serviu como um local conveniente para o depósito de lixo, principalmente onde as opções terrestres não eram politicamente e ‘eticamente’ atraentes; e como fonte potencial de minerais e riquezas biológicas”, critica.

Em 1972, uma convenção ambiental em Londres proibiu que os navios despejassem lixo no mar. Na prática, entretanto, pouca coisa mudou e, além disso, os efeitos de décadas de acúmulo de detritos ainda não foram apagados, segundo os pesquisadores. Navios graneleiros, petroleiros, barcos de pesca, ferryboats e iates depositam diversos tipos de entulho no oceano profundo, e estima-se que 636 mil toneladas de lixo sejam jogadas no mar todos os anos.

As amostras recolhidas por cientistas exibem a variedade de detritos: pesca descartada, óleo, material naval, plástico, redes de arrastão, madeira, cascas e frutas, entre outros. “Em uma pesquisa, encontramos 20 redes de arrastão em uma área de apenas 1km²”, conta.

“Pesca fantasma”

O lixo, porém, é apenas um dos problemas. Desde 1960, a pesca de arrastão é realizada em profundidades superiores a 200m. Segundo Eva Ramirez-Llodra, cada vez mais os barcos pesqueiros se afastam da costa, em busca de águas mais profundas. “Esse tipo de pesca provoca impacto nas populações de peixes até 3,1 mil metros abaixo do nível do mar. Espécies que vivem nessas profundidades geralmente têm crescimento lento e maturidade tardia, por isso, a captura por redes pode levar ao colapso de algumas populações”, afirma. “O arrastão também reduz a diversidade de invertebrados, principalmente dos corais de águas frias.”

No Mar Mediterrâneo, há pelo menos seis décadas o camarão vermelho Aristeus antennatus é perseguido por pescadores, que lançam suas redes a 900m de profundidade. “Estudos recentes sobre a biodiversidade nessas áreas sugerem que houve mudanças significativas na estrutura da população local, com diminuição não apenas do camarão, mas de corais, esponjas e equinodermes do fundo do mar, que acabam sendo capturados também”, conta Ramirez-Llondra. Além disso, muitas redes se perdem ou são descartadas no oceano, acumulando-se no fundo e resultando em um problema conhecido como “pesca fantasma”: animais caem nessas armadilhas abandonadas e não conseguem se desvencilhar. Os impactos, sugerem os autores do artigo, perduram anos a fio.

Outras atividades econômicas de risco são a exploração de petróleo e gás, que contamina as águas, além do risco de provocar acidentes, como o ocorrido no ano passado nos Estados Unidos, e a bioprospecção. Por causa da grande biodiversidade do fundo do mar, esse ecossistema tem sido uma fonte de busca de recursos biológicos e genéticos para serem usados em medicamentos e cosméticos. “Pesquisas importantes têm sido feitas, como a busca da produção de sangue artificial e agentes anticancerígenos, mas o problema é que a tecnologia usada não é adequada e coloca todo o ecossistema em risco”, alerta a biogeógrafa espanhola.

Clima

O aquecimento global não está afetando apenas as temperaturas em terra firme. Outra ameaça ao fundo do mar são as mudanças climáticas, de acordo com o estudo publicado no PloS One. “Alterações no clima ocorreram no passado depois de eventos catastróficos, que levaram a extinções em massa. Pela primeira vez na história da Terra, entretanto, as mudanças têm sido forçadas pelo homem. E essas mudanças afetam o ambiente marinho; o fundo do mar não está imune às consequências”, registra o artigo.

Nos hábitats profundos, a mudança climática implica diversos processos, como a acidificação, a alteração na temperatura e a expansão das zonas hipóxicas, áreas onde o crescimento desordenado de algas sequestra todo o oxigênio disponível. De acordo com o estudo, metade do dióxido de carbono lançado pelas atividades humanas na atmosfera vai para o fundo do mar, o que muda o PH da água. Com isso, organismos como os corais são prejudicados.

“A continuidade do aquecimento global poderá causar o desaparecimento de recifes de coral”, alerta o professor de biologia da Universidade de Penn State Jodd LaJeunesse, em entrevista ao Correio. O cientista, especialista no assunto, explica que os corais têm uma relação de simbiose com as algas, e qualquer alteração no meio ambiente pode prejudicar as duas espécies. Enquanto nas águas de superfície as algas têm demonstrado tolerância ao aumento da temperatura, nos hábitats frios e profundos muito poucas suportam as alterações climáticas.

A equipe de LaJeunesse investigou o comportamento desses organismos no Oceano Índico e na região da Grande Barreira de Corais, na Austrália. “Algumas espécies simbióticas conseguem suportar a água mais quente, mas se o aquecimento global aumentar, mesmo elas não vão tolerar mais”, acredita.

Panorama geral

O estudo publicado no PloS One tem como base o Censo da Vida Marinha, um trabalho internacional que visa mapear a vida nos oceanos. Veja alguns dados do censo:

* As águas da Austrália e do Japão são as que apresentam maior biodiversidade, com 33 mil espécies

* Mesmo as regiões menos diversas, como o Mar Báltico e o nordeste dos Estados Unidos, ainda têm 4 mil espécies desconhecidas

* Os crustáceos representam entre 22% e 35% das espécies marinhas do Brasil, do Alasca, da Antártica, da Califórnia, do Caribe e da Corrente de Humboldt, mas são apenas 10% da biodiversidade do Mar Báltico

* Os moluscos representam 26% das espécies da Austrália e do Japão, mas apenas entre 5% e 7% das espécies do Mar Báltico, da Califórnia, do Ártico e o leste e oeste canadense

* Plantas e algas são um terço de todas as espécies do Mar Báltico, do Ártico, da Europa e do Canadá. São escassas, contudo, na Antártica, no Caribe, na China, na Corrente de Humboldt, no Pacífico tropical e no Atlântico tropical

* Espécies endêmicas compreendem metade das espécies marinhas da Nova Zelândia e da Antártica, e um quarto das encontradas na Austrália e na África do Sul. As águas do Caribe, da China, do Japão e do Mediterrâneo têm menos de 2 mil espécies, e o Mar Báltico possui apenas um tipo de alga marinha

* O local onde há mais espécies invasivas é o Mediterrâneo, com 600 espécies que não são típicas daquele ambiente

* O percentual de espécies ainda não descritas é estimado entre 39% e 58% na Antártica, 38% na África do Sul, 70% no Japão, 75% no Mediterrâneo e mais de 80% na Austrália

Fonte : Paloma Oliveto / Correio Braziliense

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