quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Braúna-do-sertão (Schinopsis brasiliensis)

Taxonomia e nomenclatura

De acordo com o sistema de classificação baseado no The Angiosperm Phylogeny Group (APG) II (2003), a posição taxonômica de Schinopsis brasiliensis obedece à seguinte hierarquia:


Divisão: Angiospermae

Clado: Eurosídeas II

Ordem: Sapindales

Família: Anacardiaceae

Gênero: Schinopsis

Espécie: Schinopsis brasiliensis Engl.

Publicação: Flora Brasiliensis 12 (2): 404. 1876.

Nomes vulgares por Unidades da Federação: na Bahia, baraúna e braúna; Ceará, Paraíba e Pernambuco, baraúna e braúna; em Mato Grosso do Sul, chamacoco e chamucoco; em Minas Gerais, pau-preto, e em Sergipe, braúna.



Nota: nos seguintes nomes vulgares, não foi encontrada a devida correspondência com as Unidades da Federação: braúna-parda, coração-de-negro, guaraúna, ibiraúna, ipê-tarumã, maria-preta-da-mata, maria-preta-do-campo, parova-preta, perovaúna, quebracho e ubirarana.

Nomes vulgares no exterior: na Bolívia, soto, e no Paraguai, barauva.Etimologia: o nome genérico Schinopsis significa parecido com Schinus, uma aroeira com ocorrência no Sul e no Sudeste do Brasil (POTT; POTT, 1994); o epíteto específico brasiliensis é devido ao material tipo ter sido coletado no Brasil.


O nome vulgar braúna possivelmente vem do nome tupi ibirá-uma (madeira preta) ou muira-uma (muira = madeira; uma = preto).



Forma biológica e estacionalidade: é arbórea (árvore) e espinhenta, de caráter decíduo. As maiores árvores atingem dimensões próximas a 15 m de altura e 60 cm de DAP (diâmetro à altura do peito, medido a 1,30 m do solo), na idade adulta. A braúna é uma das maiores árvores do Bioma Caatinga.
Tronco: é reto e bem conformado. O fuste é curto, atingindo no máximo 3 m de comprimento.
Ramificação: é dicotômica. A copa é quase globosa e não muito densa. Os ramos são providos de espinhos fortes de até 3,5 cm de comprimento, nas pontas.


Casca: com espessura de até 30 mm (LIMA, 1982). A casca externa ou ritidoma é cinza-escuro, a quase negra, áspera, desprendendo-se em porções irregularmente quadrangulares.
Folhas: são compostas pinadas, com 7 a 17 folíolos de consistência subcoriácea, oblongos, medindo de 3 cm a 4 cm de comprimento por 2 cm de largura, obtusos no ápice, verde-escuros na face superior e pálidos na face inferior. Quando maceradas, apresentam fraco odor de resina.
Inflorescência: apresentam-se em panículas pouco vistosas que medem até 12 cm de comprimento.

Foto: Paulo E. R. Carvalho


Foto: Paulo E. R. Carvalho

Flores: são pequenas, medindo de 3 mm a 4 mm de diâmetro, brancas, glabras, suavemente perfumadas.
Fruto: é uma drupa alada, medindo de 3 cm a 3,5 cm de comprimento, de coloração castanho-clara e cheia de massa esponjosa.
Semente: a semente dessa espécie é de forma obovóide tendendo a reniforme, medindo de 14,37 ± 1,56 mm de comprimento; 9,81 ± 0,79 mm de largura e 5,56 ± 0,84 mm de espessura, de cor amarelo claro e superfície rugosa baça (SOUZA; LIMA, 1982), e está envolta por um tegumento lenhoso (caroço) difícil de ser rompido.
Biologia reprodutiva e eventos fenológicos

Sistema sexual: Schinopsis brasiliensis é uma espécie monóica.
Vetor de polinização: essencialmente abelhas de diversas espécies.
Floração: em julho, em Mato Grosso do Sul; de novembro a dezembro, no Ceará, e de novembro a fevereiro, em Pernambuco (ANDRADE-LIMA, 1954).
Frutificação: frutos maduros ocorrem de agosto a setembro, na Bahia.
Dispersão de frutos e sementes: anemocórica, pelo vento (MACHADO et al., 1997).

Ocorrência natural


Latitudes: de 5º S, no Rio Grande do Norte, a 19º S, em Mato Grosso do Sul.
Variação altitudinal: de 18 m, no Rio Grande do Norte, a 1.000 m de altitude, em Goiás e em Pernambuco. Na Bolívia, atinge até 1.750 m de altitude (KILLEEN, 1993).
Distribuição geográfica: Schinopsis brasiliensis ocorre naturalmente na Bolívia (KILLEEN, 1993) e no Paraguai (MICHALOWSKY, 1953).
No Brasil, essa espécie ocorre nas seguintes Unidades da Federação:
· Bahia (MELLO, 1968/1969; ANDRADE-LIMA, 1977; LIMA; LIMA, 1998; SANTANA et al., 2002; SANTOS et al., 2002; SAMPAIO; SILVA, 2005; SANTOS et al., 2007);
· Ceará (GOMES; FERNANDES, 1985; FERNANDES, 1990; MAIA, 2004);
· Espírito Santo (LOPES et al., 2000);
· Goiás (MUNHOZ; PROENÇA, 1998; SEVILHA; SCARIOT, 2000; BUENO et al., 2002; SILVA et al., 2004);
· Mato Grosso do Sul (CONCEIÇÃO; PAULA, 1986; LORENZI, 2002);
· Minas Gerais (MAGALHÃES; FERREIRA, 1981; BRANDÃO; MAGALHÃES, 1991; BRANDÃO et al., 1993c; KUHLMANN et al., 1994; GAVILANES et al., 1996; CAMARGO, 1997; CORAIOLA, 1997; BRANDÃO; NAIME, 1998; BRANDÃO et al., 1998e; SILVA et al., 1998; NERI et al., 2000);
· Paraíba (GADELHA NETO; BARBOSA, 1998; PEREIRA et al., 2002; LACERDA et al., 2003; SILVA et al., 2004; TROVÃO et al., 2004; PEGADO et al., 2006);
· Pernambuco (ANDRADE-LIMA, 1961, 1964b, 1970; DRUMOND et al., 1982; LYRA, 1984; ALCOFORADO FILHO, 1993; FERRAZ, 1994; PÔRTO; BEZERRA, 1996; MACHADO; BARROS, 1997; RODAL et al., 1999; ALBUQUERQUE; ANDRADE, 2002; RODAL; NASCIMENTO, 2002; ALBUQUERQUE et al., 2005; SAMPAIO; SILVA, 2005; SILVA; ALBUQUERQUE, 2005; FERRAZ et al., 2006; SANTOS et al., 2007);
· Rio Grande do Norte (SANTOS et al., 2007);
· Sergipe (ANDRADE-LIMA, 1979; SOUZA, 1983).

Fonte: Embrapa Florestas.


Aspectos ecológicos


Grupo ecológico ou sucessional: é uma espécie pioneira.

Importância sociológica: a braúna não ocorre formando associações puras (TIGRE, 1970). É encontrada no Sertão e no Agreste, com as espécies características dessa formação ecológica, entre elas, aroeira-verdadeira (Myracrodruon urundeuva), pau-d’arco (Tabebuia sp.), jucá (Caesalpinia ferrea var. ferrea), juazeiro (Ziziphus joazeiro) e barriguda (Ceiba glaziovii). Tem caráter solitário dentro dessa composição, encontrando-se poucas árvores por unidade de área. É uma árvore longeva.


Biomas/tipos de vegetação

Bioma Mata Atlântica

· Floresta Estacional Decidual (Floresta Tropical Caducifólia), na formação Submontana, em Minas Gerais (SANTOS et al., 2007) e Montana, em Goiás (BUENO et al., 2002; SILVA et al., 2004).

· Floresta Estacional Semidecidual (Floresta Tropical Subcaducifólia), na formação Montana, em Minas Gerais (CORAIOLA, 1997).

· Floresta Ombrófila Densa (Floresta Tropical Pluvial da Vertente Atlântica), na formação Montana, no Espírito Santo (LOPES et al., 2000).

Bioma Caatinga

· Savana Estépica ou Caatinga arbórea-arbustiva do Sertão Árido, na Bahia, no Ceará (GOMES; FERNANDES, 1985), em Minas Gerais (BRANDÃO; GAVILANES, 1994b; BRANDÃO; GAVILANES, 1994c), na Paraíba (SILVA et al., 2004; TROVÃO et al., 2004; PEGADO et al., 2006), em Pernambuco (ANDRADE-LIMA, 1961; RODAL et al., 1999; DRUMOND et al., 2000; ALCOFORADO FILHO et al., 2003), e em Sergipe (SOUZA, 1983), com freqüência de até 15 indivíduos por hectare (FERRAZ, 1994; DRUMOND et al., 2000). Segundo Tigre (1970), a braúna tem caráter solitário dentro desse Bioma, encontrando-se poucas árvores por unidades de área.
Bioma Cerrado

· Savana ou Cerrado stricto sensu, em Minas Gerais (CAMARGO, 1997).

· Savana Florestada ou Cerradão (MUNHOZ; PROENÇA, 1998).

Precipitação pluvial média anual: de 316 mm, no sudoeste do Ceará, no Sertão dos Inhamuns, a 1.400 mm, em Pernambuco.

Regime de precipitações: chuvas periódicas.

Deficiência hídrica: de moderada a forte, no oeste da Bahia e no Pantanal Mato- Grossense. Forte, no norte de Minas Gerais e em partes do Nordeste (excluindo o Sertão nordestino). De forte a muito forte quase o ano todo, no Sertão nordestino.

Temperatura média anual: 21 ºC (Triunfo, PE) a 27,2 ºC (Mossoró, RN).

Temperatura média do mês mais frio: 18,4 ºC (Triunfo, PE) a 25 ºC (Mossoró, RN).

Temperatura média do mês mais quente: 23,3 ºC (Triunfo, PE) a 28,7 ºC (Mossoró, RN).

Temperatura mínima absoluta: 1,4 ºC (Corumbá, MS).

Número de geadas por ano: ausentes.

Classificação Climática de Köeppen: BSwh (semiárido, tipo estepe, muito quente, com estação chuvosa no verão que se atrasa para o outono, podendo não ocorrer. A precipitação anual é normalmente inferior a 750 mm), na Bahia, Ceará, norte de Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe. As (tropical chuvoso, com verão seco, a estação chuvosa se adiantando para o outono), na Paraíba e em Pernambuco. Aw (tropical chuvoso – clima de savana -, megatérmico, quente, com inverno seco), no oeste da Bahia, nordeste de Goiás, Mato Grosso do Sul, norte de Minas Gerais, Paraíba e em partes do Rio Grande do Norte. Cwa (subtropical mesotérmico, de inverno seco e verão quente e moderadamente chuvoso), no Nordeste de Goiás.
Clima
Outras Formações Vegetacionais
· Ambiente fluvial ou ripário, na Paraíba (LACERDA et al., 2005) e em Pernambuco (FERRAZ et al., 2006).
· Brejos de altitude nordestinos ou disjunções da Floresta Ombrófila Aberta (VELOSO et al., 1991), em Pernambuco (RODAL; NASCIMENTO, 2002), com frequência de até 10 indivíduos por hectare (FERRAZ, 1994).
· Campo Rupestre, em Minas Gerais (GAVILANES et al., 1996).
· Mata de Cipó, no norte de Minas Gerais (KUHLMANN et al., 1993).
. Mata de Afloramento, em Minas Gerais (BRANDÃO et al., 1998).
Solos

A braúna é uma espécie característica de várzeas da região semiárida. Habita as terras altas da Caatinga, dominadas por solos de tabuleiro, de fertilidade química alta e profundos (TIGRE, 1970). Contudo, é mais frequente em solos calcários, podendo ocorrer mesmo em afloramentos pedregosos, onde geralmente não cresce muito (MAIA, 2004). É raramente encontrada nos solos profundos e arenosos dos baixios.
Tecnologia de sementes


Colheita e beneficiamento: os frutos devem ser colhidos diretamente da árvore quando iniciarem a queda espontânea. Os frutos assim obtidos podem ser diretamente utilizados para semeadura, não havendo necessidade da extração da semente.
Número de sementes por quilo: 4 mil (TIGRE, 1970) a 6 mil (MAIA, 2004).
Tratamento pré-germinativo: essa espécie apresenta dormência (SOUZA; LIMA, 1982), sendo recomendada a imersão dos frutos em água por 48 horas.
Longevidade e armazenamento: a viabilidade das sementes dessa espécie em armazenamento é curta, não ultrapassando 90 dias.

Produção de mudas
Semeadura: a unidade de semeio é o endocarpo ósseo ou pirênio (FELICIANO, 1989). Quando as mudas apresentarem a segunda folha definitiva e tenham em torno de 5 cm de altura, devem ser imediatamente repicadas, pois essa espécie tem raiz axial muito desenvolvida e sensível; se for quebrada, a planta morre.
Germinação: é epígea ou fanerocotiledonar. A emergência ocorre de 15 a 20 dias, numa porcentagem de mais ou menos 80%.

Características silviculturais

A braúna-do-sertão é uma espécie heliófila, que não tolera baixas temperaturas.
Hábito: apresenta forma irregular, sem dominância apical e ramificação pesada. A desrama natural é insatisfatória, necessitando de poda de condução e dos galhos, frequente e periódica. Métodos de regeneração: recomenda-se para essa espécie o plantio misto ou plantio em linha em vegetação secundária (TIGRE, 1970).
Sistemas agroflorestais (SAFs): sendo uma árvore alta, reta e com raiz pivotante, pode ser usada para composição de quebra-ventos e faixas arbóreas entre áreas de plantio (MAIA, 2004).


Melhoramento e conservação de recursos genéticos


Santos et al. (2007) constataram que a variabilidade genética da braúna não está uniformemente dispersa por todo o Semiárido brasileiro, mas sim por ecorregiões. Os autores sugerem estratégias que resultem no estabelecimento de um maior número de áreas de proteção ambiental para conservação in situ ou amostragens de um maior número de indivíduos, em diferentes Unidades de Paisagens para preservação ex situ.
Sem dúvida, a braúna é uma das árvores nobres da Caatinga, mas a exploração excessiva e sem reposição levou ao quase esgotamento das reservas dessa espécie, sendo hoje considerada em perigo imediato de extinção no Nordeste do Brasil. Por isso, seu corte é proibido (MAIA, 2004).
Schinopsis brasiliensis var. glabra está na Lista oficial de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção, na categoria vulnerável (BRASIL, 1992).

Crescimento e produção

A braúna apresenta crescimento lento (Tabela 1). A idade de corte dá-se geralmente de 20 a 30 anos (TIGRE, 1970).



Tabela 1. Crescimento de Schinopsis brasiliensis em plantios, no Ceará e em Pernambuco.

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Local


Idade(anos)

Espaçamento(m x m)

Plantas vivas
(%)

Altura média(m)

DAP médio(cm)

Classe de solo
(a)

Petrolina, PE(1)

3

...

72,0

1,46

...

...

Sobral, CE(1)

3

...

93,0

2,80

...

...
(...) Dado desconhecido, apesar de o fenômeno existir(1) Drumond (1982)

Principais pragas

Coleoptera: Cerambycidae conhecido por serrador, é sua maior praga (TIGRE, 1970). A larva desse inseto constrói galerias no âmago da madeira, perfurando o cerne e o alburno, depreciando muito o seu valor.
Características da madeira

Massa específica aparente (densidade): a madeira dessa espécie é muito densa (1,03 a 1,23 g.cm-3) (PAULA; ALVES, 2007).
Cor: o cerne é de cor vermelho-castanho e é muito duro, escurecendo quando demoradamente exposto ao ar.
Durabilidade natural: madeira altamente resistente à decomposição quando em ambiente externo.
Outras características: a madeira da braúna é frequentemente confundida e comercializada como aroeira-verdadeira (Myracrodruon urundeuva).

Produtos e utilizações

Apícola: as flores da braúna são melíferas.
Alimentação animal: no Bioma Caatinga, os criadores de caprinos e ovinos cortam os ramos com folhas, especialmente no período crítico de estiagem.
Celulose e papel: essa espécie é inadequada para esse uso.
Energia: a braúna pode ser utilizada na produção de álcool combustível, lenha, carvão e coque metalúrgico.
Madeira serrada e roliça: a principal utilidade da madeira dessa espécie é para a feitura de dormentes, por resistir muitos anos a locais úmidos. Contudo, é empregada como mourão de porteiras, aviamento de casas de farinha, principalmente na prensa, mão de pilão, cabos de ferramenta, macetas e esquadrias, portais, soleiras, pontaletes, frexais de vão e vigamentos (TIGRE, 1970).
Medicinal: os rebentos da braúna-do-sertão em alcoolaturas são dotados de propriedades anti-histéricas e nevrostênicas (BRAGA, 1960). A tintura da resina é tônica, em pequena dose.
A braúna é usada para fins medicinais também pelos índios kariri-xoco e xoco. A casca triturada e cozida é usada para aliviar dores de dentes. O chá da casca é usado para aliviar dores de ouvido (MAIA, 2004).
Paisagístico: espécie bastante ornamental, podendo ser utilizada, com sucesso, em arborização urbana e rural.
Plantios com finalidade ambiental: a braúna-do-sertão pode ser utilizada para enriquecer capoeiras ou caatinga empobrecida, bem como na recuperação de áreas degradadas (MAIA, 2004).
Substâncias tanantes: a casca da braúna-do-sertão contém tanino e pode ser utilizada na indústria de curtume.
Uso veterinário popular: essa espécie é usada no tratamento de verminoses dos animais domésticos (MAIA, 2004).

Autor(es): Paulo Ernani Ramalho Carvalho
http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/especies_arboreas_brasileiras/arvore/CONT000fu1ekyj802wyiv807nyi6sg2wpw9w.html
 

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