quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Mata: Guardias da vida

Sem o escudo das matas, o planeta agonizará. É por isso que, no Ano Internacional das Florestas, todos os povos são convocados a refletir sobre os rumos do progresso e a delicada relação homem-natureza

Raphaela de C. Mello
Bons Fluídos - 08/2011


Num tempo não muito distante, homem e natureza compartilhavam uma raiz comum. Sabiam que, se faltasse cuidado recíproco, prejuízos não tardariam a aparecer e, pior, seriam irrecuperáveis. Passados séculos de exploração desmedida, celebramos, em 2011, o Ano Internacional das Florestas, iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Mais que festejos, a efeméride pede reflexão e bom-senso. Sem o verde, como a vida poderá se perpetuar no planeta?

Os números são contundentes. As florestas cobrem 31% das terras do globo, abrigando 300 milhões de pessoas, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Asseguram ainda, de forma direta, a sobrevivência de 1,6 bilhão de seres humanos e 80% da biodiversidade terrestre. Trocando em miúdos, não há um indivíduo sequer sobre a face da Terra que não seja beneficiado, ainda que indiretamente, pela existência das matas.

Dentro desse belíssimo emaranhado, o Brasil ostenta duas relíquias: a Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, e a Mata Atlântica, patrimônio nacional. "A floresta amazônica abriga metade das espécies existentes no globo e represa 15% de toda a água doce disponível no planeta", destaca Márcio Astrini, responsável pela campanha da Amazônia, do Greenpeace Brasil. Embora apresente apenas 7,9% de sua composição original, a Mata Atlântica conserva sua relevância. "Além da riquíssima biodiversidade, ela abriga 62% da população brasileira, incluindo as principais metrópoles do país. Portanto, 118 milhões de cidadãos dependem de seus recursos", afirma Márcia Hirota, diretora de gestão do conhecimento da Fundação SOS Mata Atlântica.

Apesar das impressionantes estatísticas, a selva de pedra, distante léguas e léguas da mata viva, propaga a ilusória sensação de autossuficiência. Como se as engrenagens urbanas se bastassem. Quanta prepotência. "A água das nossas casas não brota da torneira, mas de uma nascente encravada na floresta", diz Márcia, com ironia.

O lembrete é óbvio, no entanto, esquecemos com facilidade o sutil equilíbrio das forças naturais. "A umidade que vem da Amazônia pelas correntes de ar influencia o regime de chuvas e a temperatura no centro-sul do país", ressalta Sérgio Talocchi, gerente de relacionamento com as comunidades, da Natura. Portanto, as florestas podem ser comparadas a um imenso filtro encarregado de promover a limpeza da atmosfera. Ora, sem a cobertura verde da Terra, não haveria chuva para limpar o poluído céu das grandes cidades ou umedecer os campos agrícolas. É a transpiração das folhas que produz o vapor-d’água necessário para formar as nuvens. Sem nuvens, não cai uma gota de chuva. Sem chuva, os solos se tornam estéreis e toneladas de poluentes invadem nossas narinas.

Da próxima vez que matar a sede com um belo copo de água potável, lembre-se de que a flora ajuda a manter a boa qualidade desse líquido indispensável para nós. As raízes das plantas e os minerais presentes no solo garantem a pureza dos mananciais, além de minimizar a erosão, impedindo, assim, que partículas de solo contaminem os reservatórios subterrâneos. "A floresta também produz matéria orgânica que serve de alimento para os peixes e os animais aquáticos", acrescenta Talocchi.

FUTURO AMEAÇADO

Em tempos de catastróficas projeções justificadas pelo avanço do aquecimento global, convém ressaltar também que as florestas tropicais representam um gigantesco estoque de carbono, elemento absorvido no processo de fotossíntese e armazenado na madeira e na raiz dos vegetais. Mas quando as árvores são cortadas e queimadas, ele é ejetado para a atmosfera por meio do dióxido de carbono, o gás do efeito estufa, fenômeno responsável pelas mudanças climáticas das últimas décadas. "Cerca de 70% das emissões de carbono advêm do desmatamento, sendo o Brasil o quarto maior contribuinte desse cenário", destaca Astrini. Por isso, cada vez mais vozes bradam para que a prática criminosa se torne uma mancha no passado das nações.

A devastação das florestas, infelizmente, não é só reflexo da ganância de alguns. Pequenos agricultores, desprovidos de instrução, se valem das queimadas para preparar a terra para o plantio, seu único meio de subsistência. Na outra ponta, grandes proprietários apelam para os tratores e as motosserras a fim de ampliar suas plantações, principalmente a de soja, e expandir a criação de gado. Segundo o Greenpeace, a mais recente tática empregada pelos fazendeiros é a pulverização de veneno de aviões em voo rasante. Secas e frágeis, as árvores são extirpadas mais facilmente.

Poucos sabem, mas o agravamento do efeito estufa, associado ao empobrecimento do solo, bem como o extermínio de plantas e animais não são as únicas consequências do desmatamento ilegal. "Quando as árvores são retiradas do terreno para fins pecuários, a pessoa pode requerer a posse da terra, o que incita a violência no campo e o aumento dos casos de trabalho escravo", alerta Márcio.

O drama não termina aí. A devastação também arrasa a vida dos povos das florestas: as populações ribeirinhas e as indígenas. Para eles, as reservas simbolizam um porto seguro, garantia de mesa farta e saudável. Um sonho idílico, cada vez mais distante da realidade. "A maioria é obrigada a migrar para as cidades e acaba morando em favelas. Há também muitos casos de alcoolismo e de prostituição envolvendo esse contingente populacional", denuncia o porta-voz do Greenpeace.

No caso dos índios, a mata representa muito mais que sustento. Isso porque a natureza está enraizada na identidade e visão de mundo desses povos. "A mitologia nos conta que, no princípio, o índio era a própria natureza. Depois, se torna filho dela. Noção que perdemos há milênios", afirma a antropóloga Carmen Junqueira, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), estudiosa do povo kamaiurá, estabelecido no Alto Xingu, em Mato Grosso. Tal "filiação" explica a relação de reciprocidade entre os índios e o entorno. "Na posição de filhos da terra, eles exploram a floresta como seus aliados. Nós, ao contrário, queremos controlá-la e dominá-la", compara Carmen.

CAMINHO DO MEIO

Você deve estar pensando: como manter a floresta intocada se desde tempos remotos o homem retira seu sustento das árvores e da terra, valendo-se da agricultura, da pecuária e do extrativismo? Conciliando crescimento econômico e consciência ambiental. A resposta não é fácil de ser colocada em prática, mas deve nortear o debate. "Preservar a floresta não significa enclausurá-la numa redoma. Mas extrair suas riquezas sem gerar destruição, por meio do manejo sustentável", enfatiza Astrini, do Greenpeace. "Temos de perseguir o crescimento econômico, mas não a qualquer preço", corrobora Talocchi, da Natura.

Se soubermos harmonizar meios e fins, não ficaremos desamparados. Segundo dados do Pnuma, as florestas são capazes de movimentar cerca de 327 bilhões de dólares anuais. Lá repousam incontáveis insumos para a indústria alimentícia e farmacêutica, sem falar no potencial à disposição da pesquisa científica. "Conhecemos milhões de espécies de animais e plantas, mas também desconhecemos outros tantos milhões. Não sabemos o que perdemos quando desmatamos", alerta Sérgio. No rastro da serra elétrica, certamente estamos arruinando a possível cura para doenças, além de subsídios para inovações tecnológicas, para desalento das gerações vindouras.

Por meio do uso amigável da terra, que pressupõe a prática do reflorestamento, do cultivo rotativo e da preservação de porcentagens de mata nativa determinadas por leis ambientais (veja mais detalhes no quadro), é possível gerar riqueza, respeitando o meio ambiente, e ainda distribuir renda para a população nativa. Muitas empresas já adotam parcerias com fornecedores locais. "Compramos insumos e matérias-primas diretamente de produtores agrícolas e extrativistas familiares, além de cooperativas. Desse modo, asseguramos justiça nas relações de trabalho e na remuneração", diz Sérgio Talocchi, da Natura.

Ninguém precisa morar numa árvore para se responsabilizar pela longevidade dos bosques. Qualquer um pode hastear a bandeira verde, inclusive os habitantes das metrópoles. "As pessoas devem se informar e se politizar para entender quais são as implicações do desequilíbrio ambiental. Também vale escolher produtos que garantam a origem de seus insumos", propõe Sérgio.
Para Márcia Hirota, da Fundação SOS Mata Atlântica, o mutirão da preservação pode começar na esquina de casa, tendo como alvo as árvores da praça: "Proteger a biodiversidade local significa apropriar-se do espaço público. Um bom começo para restaurarmos o fino equilíbrio entre homem e natureza".

DEBATE URGENTE

O governo brasileiro está debruçado sobre a questão ambiental, depois da aprovação, na Câmara dos Deputados, do novo Código Florestal.

Para desespero de todos aqueles que se preocupam com a preservação das florestas, o texto apresenta pontos polêmicos, como a anistia a agricultores que tenham desmatado até 2008, a dispensa a pequenas propriedades de recompor áreas desmatadas e a legalização da agricultura em Áreas de Preservação Permanente (APPs). Um grande retrocesso na história do movimento socioambiental, segundo estudiosos. "O novo código vai permitir que 47 milhões de hectares sejam devastados, enquanto a versão atual garante a redução de 25% dos casos de desmatamento até 2012", afirma Márcio Astrini, do Greenpeace.

Nada é definitivo ainda. O texto, em discussão no Senado, pode ser alterado. Enquanto isso, só nos resta fazer barulho. "Podemos entrar na página do deputado ou do senador que elegemos e mandar e-mails manifestando nosso repúdio", sugere Astrini.


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