quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Estudos indicam que a inteligência animal é muito maior do que se imaginava

Papagaio Alex, espécie africana
Os humanos gostam de imaginar como seriam as coisas se fossem enjaulados e perdessem o controle para animais que, de uma hora para a outra, ficaram inteligentes. Não à toa, a saga Planeta dos macacos já está na terceira versão cinematográfica. César, o primata rebelde, bebe da fonte da sabedoria, a distribui para os iguais e parte para a conquista do mundo. O Homo sapiens, autoproclamado o mais esperto animal da face da Terra, assiste ao filme e sai do cinema aliviado, porque sabe que tudo não passa de ficção.
Embora dificilmente um chimpanzé aprenda a falar, raciocinar como humano e deflagrar um motim, cada vez mais a ciência prova que a mente dos animais é muito mais sofisticada do que se imaginava. Novos estudos ao redor do mundo começam a descobrir que habilidades antes atribuídas apenas ao Homo sapiens podem ser encontradas em outras espécies: golfinhos imitam gestos humanos, elefantes se olham no espelho, ovelhas reconhecem as pessoas, macacos fabricam ferramentas e alguns espécimes parecem raciocinar. Especialistas consultados pelo Correio afirmam que a cognição dos animais é um ramo de estudo que pode revelar muitas surpresas.
Talvez o caso mais famoso na ciência tenha sido o do papagaio Alex, que morreu aos 31 anos em 2007. No fim da década de 1970, sua proprietária, a psicóloga Irene Pepperberg, resolveu ensiná-lo a falar inglês. Em entrevista à revista National Geographic, ela contou o que passou por sua cabeça ao levar a ave para o laboratório: “Pensei que, se ele aprendesse a se comunicar, eu poderia questionar ao papagaio como ele via o mundo”.
Pepperberg enfrentou críticas, deboches e ceticismo dos colegas acadêmicos. Mas Alex, o animal, pegou todos de surpresa. O papagaio aprendeu a falar. Não apenas a reproduzir o som, como muitos fazem. Ele expressava em frases seus desejos, como dizer: “Quero uvas” quando estava faminto. Alguns testes feitos por Pepperbeg mostraram que o animal raciocinava. Ao ver duas xícaras com o mesmo formato, Alex dizia o que elas tinham de diferente: “A cor”. Além disso, ele sabia contar. Cansado dos exercícios cognitivos, pedia à sua dona: “Quero ir para a árvore”. A história do papagaio foi contada por Pepperberg no livro Alex e eu, que virou best-seller nos Estados Unidos.
Vocabulário
Alex não é, porém, a única celebridade do reino animal. Um cachorro da raça border collie chamou a atenção do renomado Instituto de Antropologia Evolutiva Max Planck, na Alemanha, por conhecer 200 palavras e aprender novos vocábulos com extrema rapidez. Aos 9 anos, tinha o raciocínio de uma criança de 3. “Embora não falasse (Rico, o cão, morreu em 2008, aos 13), ele possuía uma capacidade incrível para aprender. O aprendizado não está associado à habilidade de falar”, conta Julia Fischer, que liderou a equipe que estudou Rico em 2004.
O cachorro conseguia aprender palavras novas, combinando as sílabas de objetos que conhecia. De acordo com Fischer, o processo de aprendizagem de Rico era semelhante ao dos humanos. Em uma sala com brinquedos cujos nomes ele sabia, os pesquisadores colocavam uma peça ainda desconhecida. Quando pediam para que Rico a pegasse, ele acertava sempre, pois associava o novo nome ao novo objeto. O animal também atendia a ordens como: “Pule ao pegar o carrinho verde”.
Também border collie, Chaser (“caçadora”, em português), uma cadela americana, conseguiu superar o vocabulário de Rico. Ela conhece mais de mil palavras e, de acordo com os pesquisadores que estudaram seu caso e publicaram neste ano um artigo na revista científica Behavioural processes, ela entende diferentes significados que uma mesma palavra pode ter e não obedece a comandos treinados, mas mostra que realmente sabe o que está fazendo.
Ao pedir que Chaser pegue um brinquedo, ela abocanha bolas, bonecas, bichinhos e todos os outros objetos dessa categoria. Mas se o pesquisador diz “urso de pelúcia”, por exemplo, a border collie sabe diferenciá-lo dos demais brinquedos. Chaser também passou nos testes em que os cientistas pedem para que ela coloque objetos na ordem correta. O detalhe é que ela faz isso na primeira tentativa, e sem ter sido treinada para essa tarefa específica. “Cachorros podem aprender usando os mesmos mecanismos que os homens. Precisamos entender melhor o que se passa. Por exemplo, saber se essa é uma habilidade que todas as raças possuem ou se é algo exclusivo dos border collies, cachorros sabidamente muito inteligentes. Esse tipo de pesquisa ajuda a entender também como se deu, historicamente, a relação do homem com o cachorro”, diz Alliston Reid, um dos autores do estudo e presidente da Sociedade para Análise Quantitativa do Comportamento dos EUA.
Altruísmo
Não são apenas os cachorros e os papagaios que vão além da repetição e mostram habilidades e características antes associadas exclusivamente a humanos. Chimpanzés são animais inteligentes e, por isso mesmo, lideram as pesquisas que buscam compreender a mente dos bichos. Mas eles também exibem comportamentos surpreendentes, como o altruísmo. Até pouco tempo, os cientistas acreditavam que somente o Homo sapiens, contrariando a lei da sobrevivência, era capaz de abrir mão de algo para ajudar outro indivíduo da espécie. Essa característica teria surgido 6 milhões de anos depois que os hominídeos separaram-se do elo que os prendia aos demais primatas.
Porém, pesquisadores do Centro Yerkes de Primatologia, nos Estados Unidos descobriram que os chimpanzés são extremamente sociáveis e parecem se importar com os outros. Segundo Victoria Horner, cientista envolvida no estudo, testes anteriores sugeriam que esses animais não eram altruístas. “Na realidade, os experimentos aplicados não eram o ideal para a espécie”, esclarece Horner.
No estudo do Centro Yerks, os pesquisadores desenvolveram outro tipo de teste, mais fácil de ser assimilado. Havia duas tarefas parecidas que os macacos deveriam cumprir. Eles podiam escolher qualquer uma, sabendo que, em um caso, apenas aquele que fez o teste seria recompensado, mas, no outro, tanto ele quanto um parceiro — escolhido aleatoriamente pelos cientistas — receberiam um prêmio. Sete fêmeas adultas participaram do experimento. Todas escolheram a opção mais generosa. Além disso, um detalhe interessante chamou a atenção: as chimpanzés só recompensavam as parceiras se essas se comportassem bem. Elas não se deixavam intimidar por cuspidas, grunhidos ou ameaças. Para Horner, isso significa que os animais são generosos espontaneamente, e não porque se sentem ameaçados.
Para saber mais sobre o livro e sua autora, basta acessar o site oficial : Alex e Eu
Esse mesmo teste já havia sido realizado no Yerks, mas com macacos capuchinhos. O resultado foi idêntico. “A diferença é que os capuchinhos recompensavam indivíduos de seu grupo social. O fato de terem uma atitude generosa com os quais se identificam significa que, para os macacos, é recompensador ver um parente ou familiar receber algo obtido por eles. Esse comportamento é baseado na empatia, algo que aumenta, em humanos e animais, quanto maior for a intimidade. No nosso estudo, os capuchinhos provaram que se importam com o bem-estar daqueles que conhecem”, explica Frans de Wall, um dos maiores especialistas mundiais em primatologia.
Fonte : Correio Braziliense _ Paloma Oliveto
http://ambientalsustentavel.org/2011/estudos-indicam-que-a-inteligencia-animal-e-muito-maior-do-que-se-imaginava/

 

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