quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Permacultura

Originalmente, no final dos anos 70, foi concebida como um método de agricultura permanente, porém com seu desenvolvimento, nos dias de hoje se apresenta como sendo uma proposta para uma “cultura humana” permanente. Daí nasce o termo cunhado pelos cientistas Bill Mollison e David Holmgren em 1974, da contração, do inglês Permanent mais Culture, Permaculture. Rapidamente o termo surgido na Austrália, difundiu-se pela América do Norte e Europa, chegando à América Latina e ao Brasil em meados dos anos 80. Foi traduzida como permacultura (Permanente + cultura), porém assim como a agroecologia, ainda não consta em todos os dicionários da Língua Portuguesa, no Brasil. Desta construção etimológica do termo pode-se trazer algumas considerações importantes:
• Ao abordar o conceito de cultura, esta metodologia se propõe a ser uma possibilidade de organização de diversas atividades humanas, referentes à sua própria existência, tais como sua organização socioespacial, produtiva e ambiental, o que afeta e é afetada diretamente pelos hábitos e padrões societários. Isto implica dizer que a permacultura pretende ser mais do que apenas uma prática agrícola conservacionista.
• Ao trazer a palavra permanente, remonta a um entendimento de sustentabilidade que implica a capacidade de manter, por um longo período, de tempo indeterminado, a base de recursos necessários para a sobrevivência das futuras gerações.
Uma das grandes influências no início da permacultura, foi a agricultura natural de Masanobu Fukuoka, que, em linhas gerais, defendia a menor intervenção possível no solo e a recusa por insumos externos à propriedade rural. Porém, com uma grande influência da visão sistêmica e sob a ótica da teoria de Gaia, houve a incorporação dos demais aspectos básicos da ocupação humana no planeta, que além da produção alimentar, são, entre outros: habitações; oferta de água e saneamento; geração e oferta de energia. A percepção de que a problemática ambiental está relacionada ao suprimento de todas as necessidades básicas da espécie humana foi fundamental para a construção epistemológica (ainda em processo) da permacultura. Minimamente, a permacultura apresenta uma ferramenta metodológica de desenho ambiental em ecossistemas antrópicos, ou seja, os agroecossistemas em sentido lato.
Isto implica dizer que dentre o método de desenho e ocupação de solo permacultural estão embutidos os conhecimentos de diversas áreas do conhecimento humano, que vão desde a arquitetura e a engenharia, à bioquímica, passando pelas ciências agrárias e biológicas. Todas fundamentadas por um prisma ecológico que se vale objetivamente do saber empírico das comunidades tradicionais na realidade onde se aplica, bem como trás um aspecto regionalista na intervenção.
Em outras palavras, a permacultura: É o planejamento e execução de ocupações humanas sustentáveis, unindo práticas ancestrais aos modernos conhecimentos das áreas, principalmente, de ciências agrárias, engenharias, arquitetura e ciências sociais, todas abordadas sob a ótica da ecologia. “a elaboração, a implantação e a manutenção de ecossistemas produtivos que mantenham a diversidade, a resistência e a estabilidade dos ecossistemas naturais, promovendo energia, moradia e alimentação humana de forma harmoniosa com o ambiente”. (MOLLISON, 1999, apud JACINTHO, 2002.)
No meio dos praticantes e dos estudantes em permacultura, um termo amplamente utilizado para definir o planejamento e o projeto executivo, propriamente dito, de um desenho de ocupação humana produtiva e sustentável, é o termo “design”. O design, se refere a um planejamento que envolve, além dos aspectos técnicos das ações necessárias, uma adequação temporal e econômica de sua implementação, além de uma predisposição a adequar-se às condições ambientais do local onde se aplica (fazendas, assentamentos rurais, vilas, áreas urbanas, lotes residenciais, etc.). Este último ponto é a maior diferença entre o design permacultural e outras formas de desenho/planejamento de ocupação e uso do solo, pois, de modo geral, os empreendimentos partem da premissa de alterar a realidade físico-ambiental em prol de um determinado objetivo, enquanto que no planejamento que utilize a metodologia permacultural tratará de se adequar os objetivos desejados ao meio ambiente, respeitando sua dinâmica ecológica e se valendo positivamente dos recursos locais.
Um outro aspecto fundamental, baseado em um dos princípios do funcionamento ecológico do planeta, o qual no planejamento permacultural é muito observado, se refere à interação entre cada elemento do sistema que se está planejando (ou manejando). Mollison afirma que mais importante do que a definição dos elementos (tipos de cultura, atividades produtivas, edificações, fontes de água e energia, entre outros), que comporão ou compõem um determinado agroecossistema projetado, é a definição de suas interconexões, de modo que os resíduos ou excedentes de um sejam reaproveitados por outros, fechando, assim, alguns ciclos internos ao agroecossistema.
Um dos principais aspectos epistemológicos da permacultura, reside na importância dada à “observação do objeto” (área a ser projetada) por parte do projetista. Esta observação se refere às questões ambientais locais, aos aspectos socioculturais em meio à realidade específica, às possibilidades econômicas e às oportunidades e ameaças externas ao loco do projeto, em si. Nas palavras de David Holmgren, um dos fundadores da permacultura, “Um bom design depende de uma relação harmoniosa e livre entre as pessoas e a natureza, na qual a observação cuidadosa e a interação racional provêm a inspiração, o repertório e os padrões para o design”. Como resultado desta “observação”, o autor afirma que, enquanto a agricultura tradicional é intensiva em trabalho humano e a industrial em energia fóssil, o designpermacultural é intensivo em informação e planejamento.

* JACINTHO, Cláudio Rocha dos Santos. A Agroecologia, a permacultura e o paradigma ecológico na extensão rural: Uma experiência no assentamento Colônia I – Padre Bernardo – Goiás. Orientador: Othon Henry Leonardos. Brasília: UnB/CDS, Jan. 2007. 139 p. Dissertação(Mestrado em Desenvolvimento Sustentável)-Universidade de Brasília. Centro de Desenvolvimento Sustentável. Versão integral disponível em http://www.unbcds.pro.br/publicacoes/ClaudioJacintho.pdf


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