sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sustentabilidade no centro da estratégia da indústria do papel

Setor de celulose e papel concilia qualidade, escala e baixo custo à produção sustentável
Luiz SilveiraLuiz Silveira
Mudas de eucalipto: papel brasileiro é 100% produzido a partir de florestas plantadas
Juliana Ribeiro

O setor de papel e celulose brasileiro vive um momento decisivo. Em meio à crescente demanda mundial pelos produtos, as empresas buscam conciliar qualidade, produção em escala e baixo custo à sustentabilidade.
Para debater sobre esses e outros desafios do setor, profissionais da área, pesquisadores, estudantes, economistas e outros interessados estão reunidos no 44º Congresso e Exposição Internacional de Papel e Celulose – da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP), que vai até quarta-feira, dia 5.
Logo no debate inicial, a ABTCP apresentou o primeiro estudo realizado para oferecer um panorama do setor. Os dados foram coletados entre 57 das 200 empresas instaladas no País. “Juntas elas representam 40% da produção da indústria brasileira de papel e celulose”, explica Lairton Leonardi, presidente da associação.
Segundo dados levantados, muitos avanços aconteceram nos últimos anos, especialmente quando se fala em cuidado com o meio ambiente. A indústria já reutiliza cerca de 40% de toda a água usada no processo produtivo. “Com isso, o descarte vem caindo ano após ano”, explicou Carlos Alberto Farinha e Silva, representante da Pöyry, empresa finlandesa, que atua no setor de papel e celulose e também de energia no Brasil.
Para ele, é impossível pensar em maior produtividade sem se preocupar com a sustentabilidade. “Trabalhamos para produzir mais, usando menos recursos naturais. Isso significa redução de custos e maior lucratividade também”, diz. Ele explica que para cada uma tonelada de carbono emitida na atividade, entre 3 e 4 toneladas são absorvidas pelas florestas plantadas.
Além disso, o setor vem investindo na pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, que aliem a sustentabilidade à redução de custos. Segundo o levantamento, 81% das empresas que participaram do estudo trabalham com duas até oito iniciativas voltadas para soluções sustentáveis.

Energia limpa
No que tange ao uso de energia, as empresas também já testam fontes renováveis, como a biomassa e gás natural. O setor já gera mais de 33% do total de eletricidade que consome e quer ampliar ainda mais a sua capacidade de co-geração. “Com isso, aumentamos a nossa competitividade no mercado doméstico, no mercado internacional e ainda ajudamos a reduzir as emissões de carbono”, diz Leonardi.
Outro componente que vem sendo estudado é a lignina, considerada por muitos como o petróleo do setor. A substância é um componente da madeira e sua queima gera vapor para mover as turbinas elétricas das fábricas. O desafio está em investir na tecnologia necessária para aumentar a concentração do produto e queimá-lo de forma controlada.
“Por isso é importante trazer técnicos e especialistas que mostrem como isso vem sendo desenvolvido em outros países”, explicou Afonso Moura, gerente técnico da ABTCP, ao se referir aos especialistas finlandeses que estão no evento para uma série de palestras sobre o assunto.

Desafios
Além dessas questões, outro desafio do setor está na busca por mão de obra qualificada. Com a crescente demanda por papel e celulose no mundo, especialmente da China, a necessidade por profissionais especializados cresce aceleradamente.
Cerca de 71% das empresas participantes do estudo afirmaram que terão dificuldades em contratar pessoas caso haja aumento da demanda. “Muitas acabam investindo para formar esses profissionais”, explica Leonardi.
Outro ponto que preocupa a indústria é o impasse sobre a legislação que proíbe a compra de terras por empresas com capital estrangeiro. Com isso, novos projetos de expansão de unidades e aquisição de áreas para o plantio de eucalipto, acabaram ficando literalmente no papel. “Isso faz com que o número de investimentos seja reduzido no Brasil”, diz Farinha e Filho.
Desde que a nova legislação sobre compras de terras por estrangeiros passou a valer, no final de 2010, estima-se que o Brasil já deixou de receber US$ 6 bilhões em novos investimentos, o que equivale a quase R$ 10 bilhões. Segundo dados da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), esse valor equivale a 30% do que o setor faturou no País em 2010. “Esperamos que isso se resolva o quanto antes. Vai ser bom para o setor e para o País”, diz Farinha e Filho.

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