quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Três mitos sobre alimentos orgânicos

O consumo de produtos orgânicos está em alta. Apesar de, via de regra, serem bem mais caros do que os alimentos cultivados de forma tradicional, estima-se que nos últimos anos a venda de orgânicos certificados no mundo todo tenha saltado para cerca de 52 bilhões de dólares. Só no Brasil, esse setor faturou 350 milhões de reais em 2010, ou 40% a mais do que no ano anterior, segundo dados da ONG Organics Brasil.Cada vez mais as pessoas estão optando pelo que consideram hábitos mais sustentáveis e saudáveis.
Porém, na opinião de Christie Wilcox, autora do blog Science Sushi da revista Scientific American, há excessos na defesa dos orgânicos. Ela elogia as suas vantangens como evitar a monocultura, promovendo a rotação de solo cultivado e plantações mistas. Mas ataca o que considera 3 mitos sobre eles:
1. Fazendas orgânicas não usam pesticidas
Quando a Soil Associantion – organização inglesa que difunde o cultivo e consumo de alimentos produzidos de forma sustentável – fez uma pesquisa sobre o motivo que levava os britânicos a comprar produtos orgânicos, 95% dos participantes responderam que pretendiam evitar o contato com agrotóxicos. No entanto, a principal diferença entre a produção orgânica e a tradicional não é o uso de pesticidas, mas a origem dos pesticidas utilizados.
Enquanto a agricultura tradicional usa agrotóxicos sintéticos, a orgânica utiliza toxinas derivadas de fontes naturais. É comum a ideia de que substâncias encontradas na natureza são, de alguma maneira, menos agressivas ao meio ambiente do que aquelas criadas pelo homem. Porém, as pesquisas científicas mostram que os pesticidas naturais também podem prejudicar a saúde.
A Rotenona, por exemplo, foi usada na agricultura convencional e na orgânica por décadas até que pesquisadores concluíram que a exposição a essa substância está relacionada ao desenvolvimento da doença de Parkinson e tem potencial para provocar a morte de várias espécies, inclusive dos humanos. Com isso, a utilização da Rotenona como pesticida foi proibida nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, a substância pode ser utilizada somente mediante autorização do órgãos reguladores responsáveis.
É preciso estar atento ao fato de que, mesmo que você consuma produtos cultivados sem qualquer tipo de pesticidas, isso não significa que sua saúde esteja completamente livre de riscos, pois os alimentos orgânicos tendem a ter níveis mais altos de agentes patogênicos. Um estudo realizado nos Estados Unidos encontrou E. Coli na produção de 10% das amostras vindas de fazendas orgânicas, enquanto apenas 2% daquelas vindas das culturas convencionais apresentaram a bactéria. Isso porque uma parte dos produtores orgânicos utilizam o esterco como adubo, o que pode facilitar a contaminação.
No fim das contas, os orgânicos também dependem das condições em que são cultivados. Os métodos utilizados nas fazendas orgânicas variam muito de local para local — algumas delas não utilizam nem mesmo pesticidas naturais. Portanto, é importante escolher com cuidado o fornecedor dos seus alimentos, sejam eles orgânicos ou não.
2. Alimentos orgânicos são mais saudáveis.
Algumas pessoas acreditam que, por não usar químicos sintéticos, o plantio orgânico produz alimentos mais nutritivos e saudáveis. No entanto, os estudos científicos ainda não encontraram evidências de que isso seja verdade – e cientistas têm pesquisado sobre essa hipótese por mais de 50 anos.
Um estudo recente realizado no Reino Unido revisou sistematicamente 162 artigos publicados entre 1958 e 2008 que comparavam produtos orgânicos e não-orgânicos, mas não foi encontrada nenhuma diferença na concentração de 15 nutrientes, entre eles a vitamina C, o betacaroteno e o cálcio. Os pesquisadores constataram que alimentos convencionais apresentavam níveis maiores de nitrogênio, enquanto os orgânicos apresentavam mais fósforo e eram mais ácidos – fatores que não influem em sua qualidade nutricional.
Outra análise, desta vez feita com produtos de origem animal, como carne, laticínios e ovos, encontrou poucas diferenças no conteúdo nutricional desses alimentos. Os orgânicos, porém, apresentaram níveis mais altos de gordura, principalmente de gordura trans.
3. O cultivo orgânico é melhor para o meio ambiente
Esse tipo de agricultura tem vantagens, como o fato de não utilizar pesticidas sintéticos, mas isso não quer dizer que, apesar dessa característica, não possam ser prejudiciais ao meio ambiente.
Os produtores orgânicos, como regra, não aceitam os transgênicos, embora eles tenham o potencial de reduzir o uso de pesticidas e aumentar a produtividade das plantações e o valor nutricional dos alimentos – exatamente o que o cultivo orgânico procura fazer. No entanto, apesar de rejeitar os transgênicos, boa parte dos produtores de orgânicos recorre a artifícios como a aplicação de Bacillus thuringiensis (proteína de uma bactéria encontrada no solo) como inseticida. Essa é a mesma substância produzida por algumas das plantas geneticamente modificadas, com a vantagem de que, quando é produzida pela própria planta, a toxina não contamina o solo nem as reservas de água próximas às áreas de cultivo.
Mas o principal motivo pelo qual a agricultura orgânica não é mais verde do que a convencional é porque suas fazendas têm uma fração da produtividade daquelas que usam métodos industriais. Se o mundo decidisse produzir apenas alimentos orgânicos na mesma extensão de terra tomada hoje pela agricultura, o número de pessoas famintas poderia saltar de cerca de 800 milhões para 1,3 bilhão. Portanto, seria necessário aumentar a quantidade de terra utilizada pela agricultura e, para isso, avançar sobre habitats atualmente intocados.

Wilcox conclui que nessa seara as coisas não são preto no branco. Nem tudo o que é considerado orgânico é bom para o consumidor ou para o meio ambiente. Isso não condena a agricultura orgânica. Por tentar minimizar o uso de pesticidas e adubos sintéticos, pode ser que a longo prazo ela seja o caminho para a agricultura sustentável. Mas é importante poder questioná-la e mostrar suas falhas.
Luana Caires
O Eco

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