terça-feira, 20 de agosto de 2013

Terra precisaria ter 50% mais recursos para sustentar padrão de consumo atual



por Redação do EcoD
terra Terra precisaria ter 50% mais recursos para sustentar padrão de consumo atual

Esgotamento foi registrado mais cedo do que em 2012 (22 de agosto). Foto: woodleywonderworks
 
 
O planeta Terra teria que “fechar as portas” na terça-feira, 20 de agosto, caso a humanidade se comprometesse a consumir a cada ano só os recursos naturais que pudessem ser repostos no mesmo período. A estimativa é da Global Footprint Network, organização não governamental que calcula o “Dia da Sobrecarga”.
Em 2013, o esgotamento foi registrado mais cedo do que em 2012 (22 de agosto), e a piora tem sido uma constante. “A cada ano, temos o Dia da Sobrecarga antecipado em dois ou três dias”, destacou à Folha Juan Carlos Morales, diretor regional da entidade na América Latina.
A Global Footprint Network promove o uso do conceito de “pegada ambiental”, uma medida objetiva do impacto do consumo humano sobre recursos naturais. No Dia da Sobrecarga, porém, expressa-o de outra maneira: para sustentar o atual padrão médio de consumo da humanidade, a Terra precisaria ter 50% mais recursos.
Para fazer a conta, a ONG usa dados da ONU, da Agência Internacional de Energia, da OMC (Organização Mundial do Comércio) e busca detalhes em dados dos governos dos próprios países.
Critérios considerados
O número leva em conta o consumo global, a eficiência de produção de bens, o tamanho da população e a capacidade da natureza de prover recursos e biodegradar/reciclar resíduos. Isso é traduzido em unidades de “hectares globais”, que representam tanto áreas cultiváveis quanto reservas de manancial e até recursos pesqueiros disponíveis em águas internacionais.
A emissão de gases de efeito estufa também entra na conta, e países ganham mais pontos por preservar florestas que retêm carbono.
Apesar de ter começado a calcular o Dia da Sobrecarga há uma década, a Global Footprint compila dados que remontam a 1961. Desde aquele ano, a sobrecarga ambiental dobrou no planeta, e a projeção atual é de que precisemos de duas Terras para sustentar a humanidade antes de 2050. A mensagem é que esse padrão de desenvolvimento não tem como se sustentar por muito tempo.
“O problema hoje não é só proteger o ambiente, mas também a economia pois os países têm ficado mais dependentes de importação, o que faz o preço das commodities disparar”, ressaltou Morales. “Isso ocorre porque os serviços ambientais [benefícios que tiramos dos ecossistemas] já não são suficientes”.
Brasil credor ambiental
No panorama traçado pela Global Footprint Network, o Brasil aparece ainda como um “credor” ambiental, pois oferece ao mundo mais recursos naturais do que consome. Isso se deve em grande parte à Amazônia, que retém muito carbono nas árvores, e a uma grande oferta ainda de terras agricultáveis não desgastadas.
Mas, segundo a WWF-Brasil, que faz o cálculo da pegada ambiental do país, nossa margem de manobra está diminuindo e exibe grandes desigualdades regionais. “Na cidade de São Paulo, usamos mais de duas vezes e meia a área correspondente a tudo o que consumimos”, justificou Maria Cecília Wey de Brito, da WWF. O número é similar ao da China, um dos maiores “devedores” ambientais.
Entre os principais devedores ambientais (consomem mais do que repõem) estão: Japão, Qatar, Suíça, Itália, Reino Unido, Grécia, China, Egito e Estados Unidos.
Já entre os principais credores (consomem menos do que repõem) destacam-se: Indonésia, Suécia, Austrália, Madagascar, Canadá e Brasil.
 
 
* Publicado originalmente no site EcoD.
(EcoD)

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

TERRAMÉRICA – Conciliar agricultura e conservação



por Fabiola Ortiz*
RioDeJaneiroPlantacao TERRAMÉRICA   Conciliar agricultura e conservação
Propriedade particular no Estado do Rio de Janeiro com um sistema de plantação que se adapta às manifestações locais da mudança climática. Foto:
Fabiola Ortiz/IPS
 
 
Destacados cientistas e líderes de organizações dedicadas à biodiversidade se lançam em um esforço para promover uma nova agricultura.
Rio de Janeiro, Brasil, 19 de agosto de 2013 (Terramérica).- O Brasil demorou quatro décadas para superar a insegurança alimentar e projetar-se como grande fornecedor global de alimentos. Agora suas experiências farão parte dos testes de uma iniciativa de cientistas e dirigentes que buscam conciliar a agricultura e a conservação da diversidade biológica. “Apesar dos que consideram que a agricultura brasileira é agressiva e destrutiva, queremos compartilhar outra visão para o resto do cinturão tropical, onde estão os países mais pobres e que sofrem grande insegurança alimentar”, disse ao Terramérica o presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Maurício Lopes.
A rede Bridging Agriculture and Conservation (Estender Pontes Entre a Agricultura e a Conservação) começou a funcionar em julho no Rio de Janeiro, com especialistas e pensadores mundiais sobre agricultura, conservação e sustentabilidade. Lopes é um deles. Esta rede foi criada pela Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e pela Bioversity International, uma entidade de pesquisa sem fins lucrativos que tem sua sede em Roma.
A meta é reunir, ao longo de dois anos, evidências científicas a partir do trabalho de 25 pesquisadores de diferentes lugares do mundo e apresentar à comunidade internacional e aos governos medidas economicamente viáveis. Segundo Lopes, “o Brasil conseguiu transformar grandes extensões de solos pobres e áridos em áreas férteis. Essa foi nossa primeira revolução. Depois ‘tropicalizamos’ os cultivos: trouxemos recursos genéticos de diversas partes do mundo e criamos um conceito de agricultura tropical”. O atual desafio brasileiro é promover uma grande revolução integrando sistemas agropecuários e silvícolas.
“O país ainda tem 60% de florestas naturais virgens, e queremos mantê-las assim, manejando-as de maneira inteligente. Nenhum país tem uma agricultura que caminha de forma tão determinante na direção da sustentabilidade como o Brasil”, destacou Lopes. A Embrapa estima que entre 50 milhões e 60 milhões de hectares de pastagens degradadas (zonas que foram ocupadas entre os anos 1970 e 1990) são agora reincorporadas ao processo produtivo com tecnologias de recuperação.
“A quase todos os países africanos em desenvolvimento foram apresentadas soluções baseadas no modelo clássico de agricultura industrial. Contudo, a grande maioria dos agricultores é de pequenos produtores, e as respostas até agora não levaram em conta suas necessidades. Eles continuam sendo pobres”, disse ao Terramérica o ex-diretor geral da Bioversity International, Emile Frison. Não há “soluções mágicas” que possam ser implantadas em todos os lados. O que é necessário é uma nova abordagem na interação de cientistas e agricultores, pontuou.
Segundo Ann Tutwiler, que sucedeu Frison na direção da Bioversity International, é preciso pensar em diferentes soluções. A proposta deveria “ajudar a resolver mais de uma equação nos planos local e mundial. Podemos identificar práticas produtivas para conservar a biodiversidade, reduzir o impacto ambiental e manter ou melhorar os cultivos, bem como encontrar e sugerir sementes ou plantações que contribuam para a nutrição e prestem serviços ecológicos”, afirmou Tutwiler ao Terramérica.
A representante da Bioversity International criticou a separação “artificial” entre a comunidade que prega a conservação da natureza e o setor agrícola que quer garantir alimentos à população mundial. Um dos pontos em comum é a necessidade de proporcionar uma agenda com incentivos e políticas de governo. “Se não conseguirmos esse apoio para a política em meio ambiente e agricultura, será muito difícil comprometer empresários e agricultores”, admitiu Tutwiler.
Esforços anteriores fracassaram. Entre 2005 e 2008, foi feito um estudo pioneiro, a Avaliação Internacional do Conhecimento, da Ciência e da Tecnologia no Desenvolvimento Agrícola (IAASTD), aprovado por 60 governos para promover políticas guiadas pelo melhor conhecimento científico disponível. Porém, logo caiu no esquecimento. Para o presidente da FBDS, Israel Klabin, a IAASTD e as políticas que recomendou foram um passo na direção correta.
“Serviu para fundamentar novas políticas em vários países e certamente nas agências das Nações Unidas, no GEF (Fundo para o Meio Ambiente Mundial) e no Banco Mundial. Mas o processo de transformação é de longo prazo e deve ser reforçado continuamente”, disse Klabin ao Terramérica. “Há várias propostas em andamento, com as mesas-redondas sobre soja ou carne bovina, que reúnem diferentes partes interessadas – incluída a indústria – para promover uma produção responsável que não prejudique a natureza nem as pessoas”, acrescentou Klabin.
Após um dilatado processo de consultas, a IAASTD apresentou diferentes opções e cenários e enfatizou a necessidade de repensar a ciência agrícola, não só para elevar os rendimentos e reduzir os custos da agricultura em grande escala, mas para colocar a pesquisa agrícola a serviço das necessidades dos pequenos agricultores em ecossistemas diversos e zonas de grandes carências.
Klabin observou que uma diferença com a IAASTD é que agora se trata de um esforço de baixo para cima – a partir de cientistas, empresas e instituições dedicadas a estes temas –, e não hierárquico, isto é, nascido dos governos ou da Organização das Nações Unidas (ONU). “Nos baseamos na melhor ciência existente tanto em tecnologias agrícolas como nos elementos ambientais, como as mudanças climáticas, a descarbonização da economia agrícola e a modificação da oferta de fertilizantes, dos quais os mais prejudiciais são os nitrogenados”, ressaltou.
Segundo Tutwiler, “é importante comprometermos os grandes agricultores comerciais. Há maneiras de mudar suas práticas e de fazer melhor uso da biodiversidade. Existem soluções, mas será preciso mudar a mentalidade”, afirmou.
Para Marion Guillou, do conselho diretor do Grupo Consultivo para a Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR), o primeiro passo será superar obstáculos, desafios e riscos. “Depois, teremos que decidir o que fazer como corpo original e encontrar uma ligação entre agricultura e biodiversidade, reuniremos evidências científicas sobre os pontos nos quais podemos insistir e, ao final, vamos elaborar uma lista de recomendações”, indicou.
O grupo se reunirá nos fóruns de discussão da comunidade internacional e aspira influir nos debates sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a mudança climática e o Convênio sobre a Diversidade Biológica.
“Nos próximos anos haverá discussões sobre estes temas, e teremos algo a dizer. Sabemos que reunir tudo isso levará pelo menos dois anos”, enfatizou Guillou. A novidade é integrar a conservação à agricultura e evitar um conflito que “empobreça o futuro do planeta e a própria produção agrícola”, disse ao Terramérica o biólogo norte-americano Thomas Lovejoy, que introduziu a expressão “diversidade biológica” na comunidade científica em 1980.
A questão é ver a agricultora inserida em uma paisagem natural, afirmou Lovejoy, presidente de Biodiversidade no Centro Heinz para a Economia, a Ciência e o Meio Ambiente. “Temos que produzir sistemas mais inter-relacionados. A agricultura ideal é aquela que produz sem gerar desperdício ou contaminação. Esta é a grande questão na produção agrícola, que influi nos ciclos hidrológicos e cria zonas degradadas sem oxigênio”, destacou. Envolverde/Terramérica
* A autora é correspondente da IPS.
 

domingo, 18 de agosto de 2013

A mobilidade urbana não pode esperar mais



por Washington Novaes*
congestionamento A mobilidade urbana não pode esperar mais
Foto: Divulgação/ Internet
 
Serão extremamente úteis para o País, qualquer que seja o desfecho, as conclusões do atual debate que se trava em toda parte sobre mobilidade urbana, a partir das recentes manifestações de rua, assim como da criação de faixas exclusivas para ônibus na cidade de São Paulo. A discussão adequada do problema, a adoção de políticas principalmente nas regiões metropolitanas, poderá talvez evitar ou reduzir custos imensos e hoje progressivos.
Um dos estudos recentes, do professor André Franco Montoro Filho, da USP, ex-secretário de Planejamento de São Paulo e ex-presidente do BNDES, afirma que o valor monetário de 12,5% da jornada de trabalho perdidos com uma hora nos congestionamentos de trânsito (além de uma hora, que seria “normal”) chega a R$ 62,5 bilhões anuais. E cada trabalhador, assim como cada condutor de veículos particulares, pagaria por esse “pedágio invisível” R$ 20 por dia (Folha de S.Paulo, 4/8). Não surpreende, assim, que a questão da mobilidade tenha ocupado a segunda posição no total de reivindicações nas 35 audiências públicas para discussão do plano de metas da atual administração da cidade de São Paulo (Estado, 27/6) – uma exigência da Lei Orgânica do Município.
Em editorial (Uma aposta duvidosa, 9/8, A3), este jornal já apontou a insuficiência das novas estratégias se limitadas à criação de faixas exclusivas para ônibus – embora aumentem a velocidade destes. Principalmente porque não há reordenação de linhas, faltam coletivos em muitos lugares, sobram em outros. E a reordenação enfrenta a oposição das empresas concessionárias de ônibus, que têm alta rentabilidade nos formatos atuais. Pode-se acrescentar ainda que não há uma política nesse setor que englobe toda a área metropolitana. Tudo pode ter efeito apenas momentâneo – basta ver que as restrições que tiraram das ruas milhares de ônibus fretados e caminhões, assim como a implantação de novas pistas na Marginal do Tietê, “já perderam o efeito”.
A necessidade de políticas mais abrangentes fica à mostra quando se veem números sobre grandes cidades brasileiras e sua influência no planejamento urbano – em geral, problemática. No Rio de Janeiro, o recente mapeamento das redes subterrâneas feito pela prefeitura carioca estimou haver 10.200 quilômetros de redes de esgotos no subsolo – “equivalentes à distância entre Brasil e Alemanha” – e 19 mil quilômetros de rede de cabos elétricos. Em São Paulo, a fiação elétrica chega perto de 40 mil quilômetros e só 3 mil são enterrados nos 17 mil quilômetros de ruas. Há mais de 30 afluentes sepultados sob o asfalto só nas imediações do Rio Tietê. As redes de drenagem também se estendem por milhares de quilômetros, embora ainda insuficientes, dadas as suas estreitas dimensões – e, entupidas, contribuem decisivamente para inundações.
Que planejamento se fará para a mobilidade, em que tudo isso interfere – e sabendo ainda que mais de 1 milhão de pessoas “entram e saem da capital diariamente”? E de onde virão os recursos? Estudo da ONU calcula que a “transição para cidades sustentáveis” no mundo não ficará abaixo de US$ 40 trilhões até 2030 (Rádio ONU, 7/5). Quanto será em São Paulo?
Seria, entretanto, muito proveitoso reconfigurar essas infraestruturas urbanas numa cidade como São Paulo, onde só a perda de água nas redes subterrâneas de distribuição, por furos e vazamentos, não está muito abaixo de 40% do total, que é a média brasileira – calcule-se o prejuízo financeiro e o custo para os cidadãos. E pouco se avança em obras abaixo do solo no País (São Paulo ainda vai à frente).
Os recursos para investimentos em mobilidade urbana mínguam, em lugar de crescerem. Obras que estavam previstas para até 2014, na Copa do Mundo, foram retiradas da lista das prioritárias (O Globo, 25/6). Em um ano reduziram-se em R$ 2,5 bilhões. E não se consegue “abrir a caixa-preta dos custos do transporte público, revisar contratos, promover de forma transparente o debate público sobre regras dos contratos de concessão” (blog da professora e urbanista Raquel Rolnik, relatora da ONU para o “direito à moradia adequada”, 24/6).
E a questão não é só de mobilidade ou econômica, pode ser de saúde também. Estudo de cardiologistas do Hospital do Coração de São Paulo alerta (9/8) que “a tensão gerada por fatores do cotidiano como trânsito, violência e excesso de trabalho” – todos relacionados com a mobilidade – “causa aumento da pressão arterial e a liberação de hormônios que podem comprometer seriamente a saúde cardíaca (…), o estado de tensão e alerta contínuo pode levar à liberação de altos níveis de hormônios, que geram instabilidade no organismo e podem provocar espasmos na artéria coronária que irriga o coração, além de lesionar células cardíacas, conhecidas como miócitos, por causa do aumento dos radicais livres”. O cortisol e a adrenalina podem aumentar os batimentos cardíacos e elevar a pressão arterial. Pessoas já predispostas “podem sofrer infartos e até vir a óbito”.
A questão vai chegando a níveis tais que o prefeito de São Paulo já diz que “o usuário terá que repensar o uso do carro” (Folha de S.Paulo, 8/8). Para ele, “não é simples mudar uma cultura – se fosse, alguém já teria feito”. Mas terá de fazer. E aceitar – como já foi discutido tantas vezes neste espaço – prioridades para o transporte público, sobre o transporte individual. E isso pode traduzir-se também em zonas de pedágio urbano, investimentos maciços e prioritários em metrô e trens urbanos, etc.
Teremos, todos, de mudar nossos hábitos e visões. E trabalhar com otimismo em novas direções urbanas, principalmente os administradores públicos. Como disse o filósofo G. K. Chesterton (Doze tipos, Editora Topbooks, 1993, coordenação de Ivan Junqueira), “o homem que goza de popularidade deve ser otimista a respeito de tudo, ainda que seja apenas otimista em relação ao pessimismo”.
 
* Washington Novaes é jornalista.
** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.
(O Estado de S. Paulo)

sábado, 17 de agosto de 2013

A ecologia no Brasil e o desconhecimento de suas possibilidades



por Douglas B. Trent*
arvore 768x1024 A ecologia no Brasil e o desconhecimento de suas possibilidades
Castanheira-do-brasil: árvore nativa da Amazônia. Foto: Divulgação/ Internet
O Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta. Mais de 20% do número total de espécies da Terra estão em território nacional. No entanto, possuímos poucos ecólogos, o que resulta em um raso conhecimento das espécies que vivem em nossos parques nacionais, estaduais, Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) ou quaisquer outras reservas naturais.
É importante diferenciar a ciência da ecologia de outras ciências como biologia, ornitologia, ictiologia, primatologia. Normalmente, esses estudos têm foco específico em grupos de espécies individuais. A ecologia é uma ciência mais ampla, que considera as interações entre todos os participantes de ecossistemas, incluindo seres humanos. As universidades brasileiras estão começando a estabelecer departamentos de ecologia, enquanto nos Estados Unidos esses programas já são comuns por mais de 30 anos.
Se queremos fundamentar nossas forças conservacionistas na ciência, precisamos da ecologia. Uma pequena amostra dessa verdade foi alçada nos anos 1980. Na Amazônia, foi observado como as árvores de castanha-do-pará, a Bertholletia excelsa, são dependentes de diversas espécies de animais para a sua sobrevivência.
O estudo demonstrou que o gênero de orquídeas Coryanthes tem espécies que usam vários métodos para atrair abelhas do gênero Eugolssine. Essas mesmas espécies de abelhas são polinizadoras de árvores de castanha-do-pará. Quando as castanhas maduras caem das árvores, estão cobertas por uma casca redonda e dura, da qual apenas a cutia Dasyprocta azarae possui força para abri-la. As cutias se alimentam das castanhas e enterram pedaços roídos, que guardam para buscar depois e acabam esquecidos na terra.
É necessário ter orquídeas de gênero Coryanthes para ter abelhas que polinizem flores da castanha-do-pará. É preciso das árvores para haver castanhas e são necessárias espécies de cutias para que a castanheira continue brotando. Abelhas machos precisam do perfume dessas orquídeas para atrair as fêmeas. As árvores dependem das abelhas, mas o porquê dessa dependência ainda é desconhecido.
Apesar de sabermos que nas regiões onde não existem essas flores, também não existem as abelhas e as castanheiras.
E aí? Você pode se perguntar. Entretanto, a indústria dessas castanhas gera cerca de 100 mil empregos diretos e indiretos na Bolívia e, em torno de 28 mil famílias dependem dessa indústria. O New York Botanical Garden publicou que no Brasil cerca de 40 mil toneladas de castanhas foram produzidas em 1990. Somente da safra brasileira, em 1986, rendeu USD $ 5.773.228,00. E a Bolívia ainda continua como o maior produtor de castanha-do-pará do mundo.
Todo isso depende das orquídeas, abelhas, castanheiras e cutias. Quem sabe o que ou quem mais precisa dessas orquídeas, abelhas, castanheiras e cutias? Obviamente é necessário o desenvolvimento de mais estudos científicos ecológicos, mas faltam ecólogos no Brasil, assim como projetos ecológicos.
Uma iniciativa pioneira começa a ser desenvolvida neste ano: o projeto “Bichos do Pantanal”. O Instituto Sustentar de Responsabilidade Socioambiental, juntamente com a Petrobras, coordena a iniciativa, que tem como meta pesquisar e proteger espécies da fauna do Pantanal, além de estabelecer um programa de educação ambiental direcionado a escolas, turistas, pescadores e comunidades locais.
Podemos e precisamos continuar com estudos sobre animais e espécies individuais e específicos, mas precisamos muito de grandes projetos fundamentados na ciência da ecologia, que documenta respostas e informações para as grandes questões de conservação do meio ambiente.
 
* Douglas B. Trent é ecólogo, graduado pela Universidade de Kansas/EUA. Coordenador do projeto “Bichos do Pantanal”, pelo Instituto Sustentar. Criou a Reserva Ecológica do Jaguar, no Pantanal, e foi mentor de projetos de capacitação e desenvolvimento de pantaneiros. Coordenador Internacional do Sustentar – Fórum Internacional pelo Desenvolvimento Sustentável.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O lixo, seus dramas, caminhos possíveis

por Washington Novaes*
lixo2 300x216 O lixo, seus dramas, caminhos possíveis
Foto: Divulgação/ Internet
Deveria ser de leitura obrigatória para administradores públicos e legisladores em todos os níveis – começando por governo federal, Congresso, governos estaduais, deputados, prefeitos, vereadores -, mas também para empresários e consumidores, o texto Gestão de resíduos sólidos para uma sociedade mais próspera, escrito pelo professor Ricardo Abramovay, do Departamento de Economia, e das pesquisadoras Juliana S. Speranza e Cécile Petitgand, do Núcleo de Economia Socioambiental, todos da Universidade de São Paulo (USP). Dificilmente se encontrará texto mais abrangente sobre a questão dos resíduos e as políticas adequadas que devem norteá-la, mais rico em informações, capaz de levar a mudanças indispensáveis.
É um tema decisivo para o Brasil, que no ano passado produziu 63 milhões de toneladas de resíduos domiciliares, mas não está reduzindo essa geração, nem em termos absolutos nem por pessoa. Segundo o texto, 40% do lixo, pelo menos, vai para lixões ou aterros “controlados”. E muito pouco se tem avançado. O problema não se restringe às áreas de saúde pública e de ocupação de espaços urbanos. Por isso os avanços dependerão também de uma “reformulação” até mesmo do setor privado e de seus “padrões de oferta de bens e serviços” – o que já faz parte dos objetivos estratégicos dos países do Primeiro Mundo, que responsabilizam os produtores de bens, o setor de embalagens e os geradores de inovações tecnológicas por soluções que levem a melhor aproveitamento de materiais (em computadores e celulares, por exemplo, ou na área de produtos químicos, na qual já existem 248 mil produtos em circulação; um aparelho de televisão pode ter até mais de 4 mil componentes).
Mas só 10% dos municípios brasileiros apresentaram – no prazo, que já esgotou, estabelecido pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) – seus planos de gestão para a área, eles que devem ser os principais executores. Em geral, enfrentam forte resistência dos produtores de bens, de políticos que a eles se aliam (em troca de “financiamentos para campanhas”) e da maioria da própria população, que entende não ser sua a obrigação, porque já paga impostos em que estariam embutidos serviços da área. E isso dificulta a legislação e a aplicação do princípio poluidor/pagador, de onde deveriam vir os recursos. Na Europa, nos EUA, no Japão essa responsabilização do produtor de bens e dos geradores de resíduos tem sido a chave dos avanços.
O texto agora divulgado pelos professores da USP vê muitas ambiguidades no conteúdo da PNRS, começando exatamente pela falta de definição clara das responsabilidades e pelo financiamento e organização da logística reversa, que levaria de volta aos produtores as embalagens dos bens consumidos. Também deixa às prefeituras os custos de coleta e destinação do lixo – o que é muito problemático, principalmente com a predominância de resíduos orgânicos. Só há aterros adequados em 27% dos municípios. A criação de mais aterros e os custos envolvidos incluem-se entre os obstáculos, até por causa da distância, que encarece os custos de transporte do lixo coletado. E a necessidade de formar consórcios entre as municipalidades implica muitas dificuldades políticas, em especial com a resistência dos que temem perder poder ou deixar de influir nas concessões.
Já fizemos alguns avanços importantes em alguns setores – com destaque para pneus descartados, embalagens de agrotóxicos, recebimento obrigatório de pilhas e baterias, óleos lubrificantes -, mas falta muito. Também há avanços na recuperação de embalagens de alumínio (dado o alto custo da energia na produção desse material), do papel e do plástico, do aço. Ainda faltam caminhos para levar quem gera mais lixo a pagar mais.
Problemas não existem só aqui. Resíduos são uma questão difícil em todo o mundo, já que é produzido 1,3 bilhão de toneladas anuais – a produção per capita dobrou nas últimas décadas e chega a 1,2 quilo diário. E a previsão é de que chegue a 2,2 bilhões de toneladas em 2020, embora a tonelagem incinerada ou depositada em aterros na Europa, por exemplo, tenha caído, graças à reciclagem, que passou de 23% para 35% na primeira década deste século. Na Alemanha a produção de resíduos caiu 15% com a introdução de sistema baseado no princípio poluidor/pagador: cada gerador de resíduos em residências, por exemplo, tem de separá-los obrigatoriamente e paga uma taxa proporcional ao volume do recipiente em que são coletados; o lixo orgânico é recolhido pelo poder público e enviado para aterros ou usinas de incineração; o “lixo seco” (embalagens, etc.) vai para outro recipiente e é recolhido em todo o país por uma entidade mantida pelos produtores dos bens consumidos, que pagam proporcionalmente ao volume, tiragem, etc. Os resultados foram altamente positivos em tempo curto.
Mesmo com os avanços os países da OCDE, que têm população equivalente à da África toda, produzem cem vezes mais lixo que esse continente, observa o estudo. Ou 50% de todo o lixo do mundo. E ainda exportam uma parte de seus resíduos – principalmente eletrônicos – para países africanos, numa espécie de “colonialismo da imundície”, como tem sido chamado em relatórios internacionais já registrados neste espaço em artigos anteriores. Os EUA também exportam 50% de seus resíduos eletrônicos.
Embora o estudo não seja pessimista, precisaremos de muito esforço para chegar a transformações indispensáveis no poder público em todos os níveis, ainda mais que a própria população também resiste a qualquer inovação que dela exija contribuição financeira em impostos ou taxas. Da mesma forma, parte do setor produtivo não quer incorporar custos, alegando que sofrerá perda de rentabilidade (que só ocorreria se a regra não fosse geral). Mas não há alternativas – a não ser a sujeira, a degradação de áreas urbanas, o desperdício.

* Washington Novaes é jornalista.
** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.
(O Estado de S. Paulo)