sábado, 17 de agosto de 2013

A ecologia no Brasil e o desconhecimento de suas possibilidades



por Douglas B. Trent*
arvore 768x1024 A ecologia no Brasil e o desconhecimento de suas possibilidades
Castanheira-do-brasil: árvore nativa da Amazônia. Foto: Divulgação/ Internet
O Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta. Mais de 20% do número total de espécies da Terra estão em território nacional. No entanto, possuímos poucos ecólogos, o que resulta em um raso conhecimento das espécies que vivem em nossos parques nacionais, estaduais, Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) ou quaisquer outras reservas naturais.
É importante diferenciar a ciência da ecologia de outras ciências como biologia, ornitologia, ictiologia, primatologia. Normalmente, esses estudos têm foco específico em grupos de espécies individuais. A ecologia é uma ciência mais ampla, que considera as interações entre todos os participantes de ecossistemas, incluindo seres humanos. As universidades brasileiras estão começando a estabelecer departamentos de ecologia, enquanto nos Estados Unidos esses programas já são comuns por mais de 30 anos.
Se queremos fundamentar nossas forças conservacionistas na ciência, precisamos da ecologia. Uma pequena amostra dessa verdade foi alçada nos anos 1980. Na Amazônia, foi observado como as árvores de castanha-do-pará, a Bertholletia excelsa, são dependentes de diversas espécies de animais para a sua sobrevivência.
O estudo demonstrou que o gênero de orquídeas Coryanthes tem espécies que usam vários métodos para atrair abelhas do gênero Eugolssine. Essas mesmas espécies de abelhas são polinizadoras de árvores de castanha-do-pará. Quando as castanhas maduras caem das árvores, estão cobertas por uma casca redonda e dura, da qual apenas a cutia Dasyprocta azarae possui força para abri-la. As cutias se alimentam das castanhas e enterram pedaços roídos, que guardam para buscar depois e acabam esquecidos na terra.
É necessário ter orquídeas de gênero Coryanthes para ter abelhas que polinizem flores da castanha-do-pará. É preciso das árvores para haver castanhas e são necessárias espécies de cutias para que a castanheira continue brotando. Abelhas machos precisam do perfume dessas orquídeas para atrair as fêmeas. As árvores dependem das abelhas, mas o porquê dessa dependência ainda é desconhecido.
Apesar de sabermos que nas regiões onde não existem essas flores, também não existem as abelhas e as castanheiras.
E aí? Você pode se perguntar. Entretanto, a indústria dessas castanhas gera cerca de 100 mil empregos diretos e indiretos na Bolívia e, em torno de 28 mil famílias dependem dessa indústria. O New York Botanical Garden publicou que no Brasil cerca de 40 mil toneladas de castanhas foram produzidas em 1990. Somente da safra brasileira, em 1986, rendeu USD $ 5.773.228,00. E a Bolívia ainda continua como o maior produtor de castanha-do-pará do mundo.
Todo isso depende das orquídeas, abelhas, castanheiras e cutias. Quem sabe o que ou quem mais precisa dessas orquídeas, abelhas, castanheiras e cutias? Obviamente é necessário o desenvolvimento de mais estudos científicos ecológicos, mas faltam ecólogos no Brasil, assim como projetos ecológicos.
Uma iniciativa pioneira começa a ser desenvolvida neste ano: o projeto “Bichos do Pantanal”. O Instituto Sustentar de Responsabilidade Socioambiental, juntamente com a Petrobras, coordena a iniciativa, que tem como meta pesquisar e proteger espécies da fauna do Pantanal, além de estabelecer um programa de educação ambiental direcionado a escolas, turistas, pescadores e comunidades locais.
Podemos e precisamos continuar com estudos sobre animais e espécies individuais e específicos, mas precisamos muito de grandes projetos fundamentados na ciência da ecologia, que documenta respostas e informações para as grandes questões de conservação do meio ambiente.
 
* Douglas B. Trent é ecólogo, graduado pela Universidade de Kansas/EUA. Coordenador do projeto “Bichos do Pantanal”, pelo Instituto Sustentar. Criou a Reserva Ecológica do Jaguar, no Pantanal, e foi mentor de projetos de capacitação e desenvolvimento de pantaneiros. Coordenador Internacional do Sustentar – Fórum Internacional pelo Desenvolvimento Sustentável.

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