quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Como plantar: Ora-pro-nóbis


Usada como cerca viva, ornamentação e alimento, a hortaliça se desenvolve em vários tipos de solo e é pouco explorada comercialmente
                                                
                                
Texto João Mathias
Consultores Nuno R. Madeira e Georgeton S. R. Silveira*

 
Onde se planta, nasce. Quando cresce, serve de proteção e alimento. Repleta de flores, ainda deixa o ambiente mais bonito. Por meio da hortaliça ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata), a natureza oferece múltiplos benefícios ao ser humano, o que seria motivo suficiente para a escolha de seu nome popular. Mas, conta-se que assim foi batizada pelo costume de ser colhida no quintal de uma igreja, para ser preparada para o almoço, quando o padre iniciava a reza final da missa da manhã.
'Rogai por nós' em português, ora-pro-nóbis é uma frase em latim nem sempre facilmente assimilada. Por isso, pode ser comum encontrar derivações dela, sendo por vezes chamada lobrobó ou orabrobó por agricultores de Minas Gerais, onde a planta é muito difundida na culinária local. Originária do continente americano, encontram-se variedades nativas dessa hortaliça perene, rústica e resistente à seca da Flórida, nos Estados Unidos, à região sudeste do Brasil. De fácil manejo e adaptação a diferentes climas e tipos de solo, produtiva e nutritiva, a ora-pro-nóbis é uma boa alternativa para produtores iniciantes no cultivo de hortaliças.
Ela pertence à família das cactáceas. Na idade adulta, sua estrutura em forma de arbusto torna-se uma excelente cerca viva, tanto para ser usada como quebra-vento quanto como barreira contra predadores. A existência de espinhos pontiagudos nos ramos inibe o avanço de invasores.
 
Rústica, a espécie pode ser cultivada em diversos tipos de solos
 
Perfumadas, pequenas, brancas com miolo alaranjado e ricas em pólen e néctar, as flores brotam na ora-pro-nóbis de janeiro a abril. De junho a julho, ocorre a produção de frutos em bagas amarelas e redondas. A generosa e bela floração é um ornamento ao ambiente, ideal para decoração natural de propriedades rurais, como chácaras, sítios e fazendas. A ora-pro-nóbis também pode ser plantada em quintais e jardins de residências. As folhas são a parte comestível da planta. Secas e moídas, elas são usadas em diferentes receitas, especialmente em sopas, omeletes, tortas e refogados. Muita gente prefere consumir as folhas cruas em saladas, acompanhando o prato principal. Outros as usam como mistura para enriquecer farinha, massas e pães em geral. Galinha caipira com ora-pro-nóbis é prato tradicional da culinária mineira. É servido cotidianamente nas cidades históricas do estado, como Diamantina, Tiradentes, São João Del Rey e Sabará, onde anualmente há um festival da hortaliça.
In natura ou misturada na ração, animais também aproveitam os benefícios das folhas da ora-pro-nóbis. Elas estão entre as que possuem maior teor de proteína, com algumas variedades chegando a mais de 25% da matéria seca. Na medicina popular, elas são indicadas para aliviar processos inflamatórios e na recuperação da pele em casos de queimadura.
RAIO X
>>> SOLO: qualquer tipo
>>> CLIMA: tropical e subtropical
>>> ÁREA MÍNIMA: pode ser plantada em jardins e quintais
>>> COLHEITA: a partir de 3 meses após o plantio
>>> CUSTO: órgãos de extensão rural do município podem fornecer estacas
MÃOS À OBRA
>>> INÍCIO A variedade mais indicada para cultivo com fins comerciais é a que produz flores brancas. Elas podem ser fornecidas por órgãos de extensão rural ou em feiras de produtores.
>>> PLANTIO Sua rusticidade permite que seja cultivada em diversos tipos de solo, inclusive não exige que eles sejam férteis. A ora-pro-nóbis também se desenvolve em ambientes com incidência de sol ou meia--sombra. Inicie o plantio no começo do período das chuvas. A hortaliça é resistente à seca, mas o acesso à água nessa fase do cultivo estimula o crescimento dos ramos.
>>> PROPAGAÇÃO A ora-pro-nóbis é propagada por meio de estacas. Para conseguir melhor pegamento das mudas, use a região localizada entre as partes mais tenras e as mais lenhosas da haste. Corte cada estaca com 20 centímetros de comprimento e enterre um terço dele em substrato composto por uma parte de terra de subsolo e outra de esterco curtido. Após o enraizamento, transplante as mudas para o local definitivo.
>>> ESPAÇAMENTO Varia de acordo com a finalidade do cultivo. A ora-pro-nóbis pode ser usada como cerca viva, ornamentação e para consumo das folhas. Se a prioridade for o alimento, pode-se adensar o espaçamento, deixando de 1 a 1,30 metro entre fileiras e de 40 a 60 centímetros entre plantas. Mas as folhas podem ser consumidas em qualquer caso, mesmo se a destinação tiver fins ornamentais ou a construção de cerca viva.
>>> CUIDADOS Embora seja pouco exigente em adubações, mantenha bom nível de matéria orgânica no solo para um pleno desenvolvimento das plantas e boa produção de folhas. Faça manutenção a cada dois meses e execute podas dos ramos a cada 75 a 90 dias na estação chuvosa e a cada 90 a 100 dias na estação seca, quando a planta deve ser irrigada.
>>> PRODUÇÃO A partir de três meses após o plantio, pode ser iniciada a colheita das folhas da ora-pro--nóbis - após a poda dos galhos. As folhas devem apresentar de 7 a 10 centímetros de comprimento. Coloque luvas para a hora da coleta, a fim de evitar ferimentos pelos espinhos. Em geral, cada corte rende entre 2.500 e 5.000 quilos de folhas por hectare, variação que ocorre de acordo com a condução e a época de desenvolvimento da cultura.
*Nuno R. Madeira é pesquisador da Embrapa Hortaliças, BR-060, Km 09, Caixa Postal 218, CEP 70359-970, Brasília, DF, tel. (61) 3385-9000, sac@cnph.embrapa.br; e Georgeton S. R. Silveira é extensionista da Emater-MG (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais), Rua Raja Gabaglia, 1626, Gutierrez, CEP 30441-194, Belo Horizonte, MG, tel. (31) 3349-8000, portal@emater.mg.gov.br
Onde adquirir mudas: órgãos de extensão rural do município ou feiras de produtores podem fornecer estacas
Mais informações:
o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), a Emater-MG e a Embrapa Hortaliças estão lançando o Manual de hortaliças não convencionais; informações sobre a edição podem ser obtidas na Emater-MG, portal@emater.mg.gov.br ou pelo telefone (31) 3349-8000
 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Como plantar: Gengibre

 
 
Espécie conhecida pelo homem há milênios, com raiz comestível de sabor picante, benéfica à saúde, pode ser plantada inclusive em vaso

Texto João Mathias
Consultora Eliane Gomes Fabri*

Em festa junina que se preze, quentão não pode faltar. Como sugere o nome, a bebida esquenta as tradicionais celebrações de santos populares que acontecem nos arraiais e em quermesses das cidades no mês de junho, com animadas danças de quadrilha e muita comida típica.
Feito com cachaça, açúcar e especiarias, o quentão se distingue pelo sabor picante do gengibre (Zingiber officinale Roscoe), seu principal ingrediente. Também conhecido como gingibre, gengivre, mangarataia e mangaratiá, sua parte comestível é o caule subterrâneo de uma planta com folhas verdes-escuras, que pode atingir mais de um metro de altura e é fácil de ser cultivada.
O gengibre é uma planta aromática que ainda tem uso na elaboração de licores, refrigerantes e em diversos pratos salgados e doces da cozinha oriental. Por meio de destilação em corrente a vapor, dele pode ser extraído e empregado no processo de produção de perfumes um óleo essencial, que contém propriedades terapêuticas, como cafeno, felandreno, zingibereno e zingerona. No Japão é comum aplicar o produto durante massagens de coluna e articulações.
PLANTAÇÃO de gengibre, erva de boa demanda por suas propriedades medicinais
 
O chá de gengibre ajuda no tratamento contra gripe, tosse, resfriado e até ressaca. Há locutores e cantores que afirmam mastigar pequenos pedaços de gengibre para cuidar bem da voz. A aplicação de banhos e compressas quentes é indicada para aliviar os sintomas provocados por doenças como gota, artrite, dores de cabeça e da coluna, inclusive diminui congestionamento nasal e cólicas menstruais. Longe de serem apenas crendice, os benefícios do gengibre à saúde humana são reconhecidos pela OMS - Organização Mundial da Saúde, especialmente quanto aos efeitos sobre o sistema digestivo. A OMS indica a hortaliça para evitar enjôos e náuseas.
Embora pouco difundido por aqui, o gengibre é utilizado pelo homem desde tempos imemoriais. De origem asiática, chegou à Europa no século XIV e, depois, já nos primeiros anos de colonização, ao Brasil. Bem adaptada às regiões de clima quente e úmido do país, ocorre na faixa litorânea que vai do Amazonas a Santa Catarina. As principais áreas de cultivo estão no Espírito Santo, sul de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
 
Raio X
SOLO: areno-argiloso, fértil e com boa drenagem
CLIMA: tropical e semitropical
ÁREA MÍNIMA: pode ser plantada até em quintais de residências
COLHEITA: em média, 15 toneladas por hectare
CUSTO DA MUDA: varia de 60 centavos a um real
Mãos à obra
INÍCIO - a estação das chuvas é a indicada para iniciar o plantio de gengibre, em especial os meses de setembro a novembro. O gengibre prefere os climas tropical e subtropical, porém há variedades que se adaptam às temperaturas baixas de regiões mais frias. Entre as popularmente conhecidas estão a branca, azul e amarela. Dê preferência por mudas de qualidade e oriundas de lavouras que não sofreram ataque de doenças.
PLANTIO - o solo ideal é o argilo-arenoso, fértil, com pH entre 5,5 e 6,0 e boa drenagem. Embora a cultura necessite de muita água para se desenvolver, ela não suporta encharcamento. Troque de local a cada safra, para evitar queda nas próximas produções.
ADUBAÇÃO - recomenda-se para a adubação 240 quilos por hectare de P2O5, além de incorporar 30 quilos por hectare de N e 70 quilos por hectare de K20 nas amontoas - wcobertura de terra dos rizomas (ver item propagação). Caso seja necessário o uso de calcário para a correção do terreno, aplique o produto no mínimo três meses antes de começar o cultivo. O índice de saturação não pode estar abaixo de 50%.
ESPAÇAMENTO - deixe os sulcos de plantio com cerca de 15 centímetros de profundidade, oito centímetros a distância entre os rizomas e um metro entre as linhas.
PROPAGAÇÃO - o gengibre propaga-se por meio de gomos. São pedaços de rizoma com um a dois brotos. Em um mês, as mudas estão prontas para o transplante em local definitivo. Os rizomas devem ser cobertos com uma camada de dez centímetros de terra depois de plantados. Mas como crescem para cima, é preciso cobri-los periodicamente.
PRODUÇÃO - o tempo para colher o gengibre varia de sete a dez meses, o que ocorre entre junho e agosto. O amarelecimento das folhas avisa que o rizoma amadureceu. Ele pode ser extraído da terra manualmente. A produção por hectare pode atingir 15 toneladas do produto fresco e três toneladas do seco.
 
*Eliane Gomes Fabri é pesquisadora do Centro de Horticultura do IAC - Instituto Agronômico de Campinas, Plantas Medicinais Aromáticas, tel. (19) 3241-5188, ramal 354, efabri@iac.sp.gov.br
Onde comprar: O escritório do Incaper - Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural, em Santa Leopoldina, ES, indica produtores, tel. (27) 3266-1177, santaleopoldina@incaper.es.gov.br
Mais informações: Iapar, Londrina, PR, Rod. Celso Garcia Cid, km 375, CEP 86047-902, Três Marcos, Caixa Postal 481, tel. (43) 3376-2000.